Há algo estranho no ar, não é apenas a doença pandêmica, mas diversos intentos de censura, manifestações abertamente fascistas, listas de opositores do Bolsonarismo circulando na internet e um governo que até semana passada colocava lenha na fogueira agora tentando “serenar os ânimos”, posando de moderado que tenta combater “terrorismo interno antipatriótico”. Há indícios de que o governo federal e seus agentes tentarão alguma coisa no próximo domingo para desqualificar os movimentos e atos pró-democráticos que vem se formando desde o último domingo e que marcaram ato para este domingo.

Porém, atos de rua sabemos como começa mas nunca como termina. Nos EUA, os governos locais decretaram toque de recolher, reservistas foram chamados para reforçar as polícias locais na repressão aos atos, quase 10 mil pessoas já foram presas e Donald Trump ameaçou colocar o exército para reprimir os atos contra a discriminação racial, longe de esvaziar as ruas, a repressão exacerbada colocou a grande maioria do povo estadunidense a apoiar as manifestações. 

Em 2013, as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte público, que diferentemente do que se fala hoje foram inicialmente uma manifestação de ESQUERDA, foram engrossadas justamente após a hoje conhecida “quinta-feira infame” quando no dia 13 de junho a PMESP reprimiu de forma violenta a 4ª manifestação do Movimento Passe Livre, realizou duzentas prisões, forjou flagrantes, prendeu o jornalista do Carta Capital Piero Locatelli ainda na concentração do ato, atirou com bala de borracha no olho da jornalista Giuliana Vallone e cegou o olho esquerdo do fotojornalista Sérgio Silva que a acompanhava. Somente depois que o ato começou a ganhar corpo que direita expulsou os partidos da manifestação e saiu do armário desenterrando Bolsonaro do fundão do baixo clero.

Tudo isso mostra que a manobra que o bolsonarismo quer empreender agora contra as manifestações pró-democracia pode ser um tiro pela culatra, já que movimentos de rua tem como sua principal característica a imprevisibilidade dele. Se fosse um sistema meteorológico seriam comparados a chuvas, algumas vezes podem ser garoas, outras, uma chuva mais moderada, e vai subindo a escada até chegar aos grandes furacões. Quanto maior a tempestade mais imprevisível ela é, os grandes furacões são os mais imprevisíveis de todos, e mesmo com todo o avanço tecnológico do último meio século, com supercomputadores e imagens de satélite, ainda sim não é possível prever o seu surgimento ou o seu caminho com total exatidão.

Mesmo nós não sabendo quando e onde começará o próximo furacão, mas se sabe o que os alimentam, choques de frentes frias e quentes sobre águas quentes. Na sociedade não é muito diferente, não se sabe quando nem onde um junho de 2013 ou uma revolta como a que ocorre agora nos EUA se formará, mas se sabe o que o alimenta, empobrecimento rápido da população, desemprego massivo, falta de perspectivas sobre o futuro. Onde será que existem essas condições? O Brasil atual parece um bom candidato a ter um grande furacão político com a agravante de uma crise institucional que é a maior desde a redemocratização dos anos 1980.

O bolsonarismo dá sinais claros de que planeja algo muito ruim contra os movimentos pró democráticos de domingo, mas manifestações de rua são muito imprevisíveis e uma grande onda repressiva, longe de diminuir os ânimos para a luta, podem atiçar ainda mais a brasa da vontade de decidir do povo. É necessário tomarmos cuidado com os tempos perigosos em que vivemos, mas o bolsonarismo não está a salvo de ficar no olho deste furacão social, muito pelo contrário, uma grande onda de manifestações pedindo o fora Bolsonaro e democracia podem acabar com o seu governo de destruição nacional.

Leia Também:

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.