Comandante Soleimani, o personagem da semana

Essa semana tão especial para nós, pois essa humilde página iniciou seus primeiros passos na web, longe de ser morna como uma semana normal de janeiro, o mundo quase assistiu o começo de uma nova guerra, viu acordos serem feitos, farsas sendo derrubadas. 

No Brasil os tempos sombrios que vivemos deram as caras com a censura imposta a plataforma de streaming Netflix pelo Especial de Natal do Porta dos Fundos, mas que felizmente foi derrubado em seguida, além de tímidas mas já presentes manifestações pelo reajuste da passagem em São Paulo enquanto a inflação do ano passado é maior que a reposição salarial aprovada pelo governo Bolsonaro. 

O mundo no começo dessa semana assistiu uma escalada sem precedentes, primeiro, ainda no ano passado, os EUA atacaram bases do grupo Kata’ib Hezbollah no Iraque  (não confundir com o grupo Hezbollah no Líbano, são grupos diferentes). Esse ataque resultou numa grande manifestação anti imperialista na virada do ano que quase destruiu a embaixada estadunidense em Bagdá

Essa manifestação foi usada como pretexto pelos EUA para assassinar o comandante das Forças Especiais Al-quds Qasem Soleimani, por um drone, que segundo o Asia Times, estava em missão diplomática oficial. Seu assassinato causou grande comoção dentro do Oriente Médio, mas principalmente no Irã, que o seu martírio uniu um país dividido contra os EUA, novamente.

Essas operações militares dentro do Iraque foi a gota d’água para que o congresso iraquiano, dominado pelos xiitas, aprovasse a saída das tropas americanas do país, com abstenções, porém sem um voto contrário, mesmo daqueles mais alinhados com os EUA.

A resposta do Irã ao ataque foi um grande ataque de mísseis contra duas bases estadunidenses no Iraque. Apesar das bases terem ficado bastante danificadas, não registrou vítimas fatais, e ambos os lados resolveram diminuir o tom.

Uma nova guerra no Irã seria prejudicial para ambos, e nenhum dos lados na disputa querem uma conflagração na região. Para o Irã seria um completo desastre, com a quantidade de perdas de vidas acima dos milhões de mortos, além da destruição completa de infraestrutura do país, e no caso de derrota, da execução de toda a cúpula do governo da república islâmica.

Para Trump, que se elegeu com um discurso isolacionista, prometendo que iria retirar as tropas dos EUA do Oriente Médio, uma guerra lá, apesar de benéfica para sua reeleição no curto prazo, mas tornaria o seu governo insustentável a médio e longo prazo. Além disso, uma vitória dos EUA no país não é garantido, visto a tradição guerreira de 4 mil anos do povo persa, tradição que remete a nomes como Dario o Grande, Xerxes entre outros, que prefere a morte numa batalha perdida de antemão a viver com a pecha de covarde.

Visto uma situação de conflito importante, mas distante, a postura do governo brasileiro, que em outros tempos teve uma atitude progressista mesmo em governos reacionários – como o presidente Geisel ser o primeiro governante a reconhecer a independência de Angola e o governo do MPLA – contrariou a sua tradição ao soltar uma nota após a morte do comandante Soleimani, não condenando o assassinato de uma autoridade de uma nação soberana por outro país no território de uma terceira nação, mas sim os protestos contra na embaixada dos EUA em Bagdá, ainda por cima fazendo um chamado para o “combate ao terrorismo internacional”.

Além de mostrar um alinhamento cego ao EUA, ainda por cima destrói uma longa tradição de neutralidade e pragmatismo do governo brasileiro, além de ignorar completamente o fato de que a soberania de dois países fora violada, numa atitude covarde e belicista de uma potência que tenta se impor em todo o mundo de forma unilateral, não se importando com as pessoas que vivem nesses lugares. O governo reacionário brasileiro com essa atitude deu uma aula de como jogar a respeitabilidade de seu próprio país na lata do lixo.

Mas não foi só de guerras e desastres que foi feita a semana política no mundo. Depois de quase 1 ano e meio de guerra comercial que quase joga o mundo numa nova crise económica, China e EUA anunciaram um primeiro acordo comercial para ter uma trégua de um conflito de taxas e palavras

Os objetivos de Trump com a guerra comercial era tirar a competitividade da economia chinesa perante os EUA, o que acabou se demonstrando muito perigoso para o capitalismo global, e com eleições se aproximando, ele não poderia arriscar uma nova crise econômica mundial, por isso vai assinar um acordo com a China muito menos favorável do que gostaria. Mais um fiasco de política externa do vendedor Trump, uma vitória para a China.

Na América do Sul a farsa do autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó, foi derrubada por uma ala da própria oposição, que após um ano de trapalhadas e confusões típicas de uma ópera bufa de mal gosto, escândalos de corrupção, fotos com narco paramilitares e desvio de verbas para boates, hotéis de luxo e lojas de grife, se cansou da situação de completa ilegalidade da Assembleia Nacional e agora tenta negociar uma convivência amigável com o presidente Maduro, que prontamente se sentou a mesa para negociar uma saída para esse episódio lamentável que o imperialismo impôs a Venezuela.

No Brasil, apesar da fama de que o ano só começa de fato após o carnaval, essa semana, a primeira completamente dentro de 2020 foi bem agitada. As forças reacionárias deram as caras ao censurar na justiça o Especial de Natal do Porta dos Fundos, que apesar de ter sido revertida no dia seguinte pelo juiz Dias Toffoli, em regime de plantão no STF, mostra uma onda de ataques cada vez maiores aos direitos democráticos, ataque esse que vem desde 2016, mas que vem se intensificando cada vez mais no governo Bolsonaro.

Em São Paulo, a prefeitura e o governo do estado aumentaram a passagem para R$4,40, e como não poderia deixar por menos, o Movimento Passe-Livre, organizou duas manifestações nesta semana contra o aumento da passagem. 

A primeira na terça (7), começou na sede da prefeitura e foram até a Avenida Paulista, a segunda na quinta (9) foi da Praça da Sé até a Praça da República no centro. Ambas mesmo pequenas teve uma forte presença da polícia que de forma truculenta impediu o uso dos manifestantes do transporte público no final da manifestação. Como sempre, a polícia age não em favor do direito a manifestação democrática e livre (mesmo no transporte público ela é legítima, visto que é também um espaço público e como tal a manifestação de opiniões e reivindicações deve ser livre).

Na sexta (10) saiu o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano de 2019 foi de 4,48%, puxada principalmente pela alta dos alimentos (6,37%), principalmente da carne bovina, mas também dos transportes (3,57%) e do setor da saúde (5,41%). Esse índice inflacionário é maior do que o aumento do salário mínimo dado pelo governo Bolsonaro de 4,1%, assim deteriorando a condição de vida dos mais pobres que estão pagando a conta da crise com falta de emprego formal e consequente explosão da informalidade, inflação, destruição dos direitos trabalhistas e do estado de bem estar social.

Essa foi uma semana agitada apesar de ser a primeira iniciada e terminada em 2020, uma semana cheia de emoções, altos e baixos. Uma semana muito importante para nós, porque essa página modesta deu seus primeiros passos e hoje está no ar, levando um pouco de luz a um tempo sombrio, que vai passar, mas só com a atitude vinda de todos nós, por isso ela vem a existência. Agradeço às pessoas que permitiram essa pagina ir ao ar (mais especificamente um casal) e a todos que nos acompanharam nessa primeira semana e a quem ainda vai nos acompanhar, vocês são muito importantes nessa jornada.

2020 é um ano que promete ser muito agitado e estaremos aqui para explicar aquilo que é difícil, mostrar as armadilhas escondidas e o caminho para superarmos as trevas reacionárias que vem se estendendo pelo mundo, pois um novo mundo é possível, um novo Brasil é possível, só depende de nós fazermos a coisa certa. Mas primeiro precisamos conhecer o que se passa ao nosso redor para agirmos, só assim sairemos desse atoleiro civilizacional.

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