A política foi criada com um objetivo honrado para regular coisas nem sempre honradas, objetivo esse que é a mediação da disputa pelos meios de poder (econômico, militar e o estatal que é uma mistura de ambos) através de meios não-violentos. Isso foi idealizado para que as diferentes demandas da sociedade pudessem ser expostas e discutidas sem que o debate termine em sangue e morte, como quase sempre ocorria antes do surgimento das repúblicas representativas e suas derivações modernas.

Mas no Brasil de Bolsonaro, a violência, seja a violência retórica, seja pela violência na prática (como o atentado a produtora do grupo humorístico Porta dos Fundos), voltou a ser largamente utilizada pelo Bolsonarismo e seus apoiadores. Criação de milícias armadas como os 300 de Brasília (que não passam de 30), invasões de hospitais em meio a pandemia, ameaças generalizadas a pessoas e a instituições que não se curvam as vontades do presidente, processos contra opositores por falas e charges usando como base a lei de segurança nacional. O mais grave disso tudo é que isso está sendo largamente chancelado pelas forças armadas que “descartam o golpe” ameaçando dar um golpe. Veja abaixo o porquê isso é perigoso e onde isso pode dar:

Bolsonaro subiu ao poder com o discurso de que ele era o maior representante da tal “nova política” e que governaria sem conchavos ou acordos ditos por ele “espúrios” para aprovar a sua pauta. No primeiro ano dele, basicamente esta política resultou em ondas sucessivas de crises políticas, principalmente com a câmara e o senado, tocando uma política, cujo a pauta econômica era a mesma do presidente, mas que em todo o resto era independente dele. Isso foi possibilitado pelo fato da constituição ter sido desenhada pelo centrão para ser uma constituição parlamentarista, mas que no final, devido a pressão da esquerda, acabou adotando (ainda que temporariamente) a forma presidencialista. 

O centrão, junto com Ulisses Guimarães estavam contando com o plebiscito previsto em 1993, cujo o objetivo era a definição da forma de governo, para enfim reverter aquela derrota e implantar de vez o parlamentarismo no Brasil (seja ele monárquico ou republicano). Não deu outra, o povo mesmo no rescaldo do impeachment de Collor, ainda sim, elegeu o presidencialismo por quase 70% dos votos, mas a estruturação parlamentarista da constituição, ainda sim, permaneceu inalterado, dando grandes poderes ao parlamento como a derrubada do veto presidencial.

Por causa disso, a pouquíssima habilidade de um presidente eleito, seja ele qual for, graças aos poderes que a constituição confere ao parlamento, acabam resultando num “parlamentarismo branco” ou um “semi-presidencialismo” sem a figura do primeiro-ministro. Consequentemente, Bolsonaro começou uma campanha para o aparelhamento do aparato de segurança pública, que teve como obstáculo o lava-jatismo e o seu representante no governo Bolsonaro, Sergio Moro.

A luta foi longa e somente em abril deste ano é que Bolsonaro se livrou de Moro, logicamente isso trouxe grande problemas a ele, mas deixou o caminho livre para o aparelhamento da Polícia Federal e o seu consequente uso para o achaque de adversário políticos do bolsonarismo. Isso deixou o caminho livre também para o bolsonarismo constituir milícias paramilitares, como o 300 de Brasília (que não passam de 30), orquestrados pela nazista Sara “Winter” Geromini, com o objetivo de achaque dos opositores, sejam indivíduos ou mesmo instituições, através de métodos extra institucionais e muitas vezes violentos, até com o uso confesso pela própria Giromini de armas no acampamento.

Agora, Bolsonaro declara que pode desobedecer ordens judiciais, e cito fala de hoje feita por Bolsonaro “está chegando a hora de tudo ser colocado em seu devido lugar”. Tudo isso sendo feito com a anuência de generais como Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, que dão declarações dúbias, que sugerem golpe em caso de decisões judiciais que abreviem o governo Bolsonaro ou a quebra de sigilo telefônico dele. Isso é um sinal claro de anuência das forças armadas ao projeto criminoso do governo Bolsonaro, que está destruindo o estado e a vida dos brasileiros ao sabotar as medidas de combate a pandemia.

O governo já tentou esconder os números da doença pandêmica, teve que voltar atrás por causa de uma decisão do STF que solicitou a volta da publicação dos números de vítimas da pandemia conforme a metodologia anterior. Em caso de um autogolpe, Bolsonaro não obedeceria nada, somente ao exército, que nunca teve um bom histórico de transparência, tanto no passado recente quanto no passado distante, vide a epidemia de meningite que foi escondida por eles.

Uma ditadura do exército com Bolsonaro como testa de ferro seria um monstro sem controle, que devoraria não apenas a esquerda e a oposição mais ferrenha, mas qualquer um que se tornasse um obstáculo ao governo, mesmo aqueles que hoje aplaudem estes abusos cometidos pela demolidora Bolsonaro. Ditaduras não prestam contas a nada ou a ninguém, não se pode tirar um ditador incompetente por meios legais, apenas pela força das armas, já que ditadores não obedecem ordens judiciais ou votações no congresso.

Por isso a campanha pelo Fora Bolsonaro deve ser feita o mais rápido possível, mas retirar apenas Bolsonaro e seu vice não bastam, é necessário a limpa no aparato repressivo, que está cada vez mais aparelhado pelo bolsonarismo, ao mesmo tempo que milhares de militares, da reserva e da ativa, estão ocupando cada vez mais cargos dentro do governo. Um certo país do Oriente Médio já mostrou em 2016 como se faz.

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