A Arte da Negociação foi escrito por Donald Trump e Tony Schwartz em 1987 foi um grande best seller dentro dos EUA, ficando 13 semanas seguidas no topo do ranking do New York Times naquele ano, virando um cartão de visita de Trump na TV, proporcionando a Trump a primeira exposição positiva a nível nacional dentro dos EUA, décadas antes do the apprentice.

O livro obviamente não é sobre política, mas sobre a vida de Donald Trump como especulador imobiliário em Nova Iorque onde ele dá dicas de como fechar um bom negócio, ainda que seja bom só pra você, sendo um livro feito para dar um gosto de como é a vida de um empresário, quase uma autoajuda para vendedores.

Desde o lançamento do livro até aqui muita coisa mudou para Trump. Na virada dos anos 1980 para 1990, se arriscou muito na construção de um grande cassino, o taj mahal, tomando empréstimos com juros altíssimos, o que obrigou ele a buscar ter um faturamento elevado nesse cassino, numa época de crise econômica, o que quase quebrou as empresas de Trump.

Somente no lançamento do the apprentice, em 2003 que ele ganhou popularidade o bastante para se lançar presidente dos EUA, porém nessa época ele já havia quebrado como especulador e o que havia restado era transformar o próprio nome numa grife. 

Mas a política ela é muito mais do que apenas um concurso de popularidade, pois um político ele não é uma classe em separado, como um empresário, um operário ou um sapateiro, ele é a representação de uma determinada classe e como tal, seu poder para ser exercido necessita de uma ampla negociação com os outros atores sociais.

Trump representa os interesses de uma ala minoritária da burguesia estadunidense com interesses contrários à alguns da burguesia monopolista. É um setor isolacionista que viu muito de seus lucros serem reduzidos por causa da concorrência chinesa que tem conseguido produzir de forma mais barata, já que conseguem produzir em maior escala que os norte-americanos.

Para atender o setor que ele representa, Trump alterou significativamente a política externa norte-americana ao iniciar uma guerra comercial com a China para forçar os chineses a aceitarem implementar um pacote de medidas ruins para a competitividade chinesa.

No oriente também, Trump no começo de seu mandato intensificou ainda mais as hostilidades com a Coréia do Norte, por meio da intensificação de sanções econômicas, e de uma campanha propagandística anti-RPDC e de ameaças sem precedentes na história recente. Tudo isso para que a Coréia do Norte abra mão de seu programa nuclear tendo praticada nada em troca. 

Depois do primeiro ano, o Presidente da Comissão de Assuntos Estatais da RPDC  Kim Jong Un, num gesto de boa vontade para diminuir a volatilidade da península coreana, sinalizou em seu discurso de ano novo em 1 de janeiro de 2018, de que estaria disposto a entrar em negociações com os EUA e a Coréia do Sul, além de ter decretado moratória dos testes nucleares, com o fechamento do principal centro de testes do país, que imediatamente foi respondido com a primeira ronda de negociações diplomáticas inter coreanas desde a Declaração de Paz e Prosperidade de 2007.

Ainda perseguindo o desejo do arrefecimento dos ânimos na Coréia, Kim Jong Un, enviou uma delegação de atletas para as olimpíadas de inverno de Pyeongchang em fevereiro daquele ano, com as duas delegações, do Norte e do Sul, competindo com o estandarte da Coréia unificada, celebrando-se nesse período também um intercâmbio cultural entre norte e sul, com shows de bandas e artistas de ambos os lados do paralelo.

A gana imperialista não poderia ter outro resultado, por um lado, por não ter cedido nas sanções contra a Coreia do Norte, ainda que dando um pequeno alívio, e por ter realizado exercícios militares com a Coreia do Sul no meio da moratória de testes nucleares da Coreia do Norte, as negociações fracassaram.

Com o Kim Jong Un, na plenária do Comitê Central do Partido do Trabalho da Coreia declarando que os EUA não está disposto a acabar com as sanções, tão pouco dá sinais de que diminuiu a mão com sua política hostil perante a RPDC, com a realização de manobras militares em conjunto com a Coreia do Sul, mesmo com a decretação da moratória sobre testes nucleares, e que por causa disso está cessando a moratória decretada em 2018 e que vai em breve apresentar uma nova arma.

O vendedor Trump agiu na política para impor seus interesses sobre outras nações soberanas, que buscavam, ou tinham um acordo com os EUA, mas em política internacional, ainda mais que nos negócios comerciais, a confiança é a chave do sucesso. 

A nível do dia-a-dia, por mais que a confiança exerçam um papel muito importante para evitar prejuízos desnecessários, mas caso você como parte em algum acordo legalmente estabelecido leve um calote da outra parte, sempre existirá o estado para fazer valer o acordo. 

Mas a nível internacional, não existe algo como um estado para acudir alguém que levou o cano de outro estado, apesar de existir as Nações Unidas, que é o mais importante foro público internacional, entretanto, ainda sim não tem jurisdição para ser uma espécie de estado supranacional. 

Diferentemente do nível local, onde caso você queira ignorar a existência do estado e de suas leis, você pode ser preso, a nível internacional, caso algum país queira ignorar o que a ONU decidiu, só sofrerá alguma punição caso algum outro estado resolva fazer alguma coisa, o que pode ser altamente questionável, visto que os países são entidades soberanas e por tanto a interferência de outro estado nela é uma violação dessa soberania. 

Para um órgão como a ONU ter alguma relevância, necessita da colaboração mútua dos países, que têm um caráter muito diferente de um estado soberano agindo dentro de seu território, e para haja estabilidade internacional, é necessário que exista confiança mútua entre todas os países.

A confiança é algo que não é conquistado com discursos, propagandas e relações públicas, mas sim pelo seu histórico de ações, e se o estado cumpre ou não com os acordos que fecha com outros, e nesse sentido, é impossível fazer acordos com quem rasga tratados , tem ações dúbias, ou com países que declaram de forma aberta que seus objetivos principais junto a seu país é a mudança forçada de regime, com a sua destituição, e até assassinato.

Por causa desses motivos, o vendedor Trump falhou miseravelmente com todos os seus objetivos de política externa, e é por causa disso que os EUA vêem seu poder sendo eclipsado cada vez mais pela Rússia e pela China, não que sejam bonzinhos, mas cumprem o que prometem, afinal, quantos golpes de estado e mudanças de regime a China fez depois de 1979? quantos acordos a Rússia descumpriu na cara dura contra um aliado?

Uma conclusão que se pode tomar disso é que apesar de políticos serem bons vendedores, mas vendedores não são necessariamente bons políticos, ou bons governantes.

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