Na semana passada (29), o Banco Central anunciou a criação da nota de 200 reais, que estamparia nela o lobo-guará, animal típico da mata atlântica e do cerrado. Muito memes surgiram desse anuncio, mas num momento onde cada vez mais se utilizam transações digitais para o pagamento de compras, uma nota de 200 reais suscitaram vários questionamento em relação a lavagem de dinheiro, mas principalmente sobre o risco de inflação.

Apesar do governo no anúncio da nota negar que haveria emissão de moeda, na prática, a situação econômica pode levar o Brasil rapidamente a uma situação de forte inflação graças a dívida pública, que já bateu a casa dos 85% do PIB ou 6,153 trilhões de reais com perspectiva de chegar a 90% antes do fim do ano. Isso ocorre por conta dos gastos com a pandemia e de sua extensão fora do normal no Brasil, já que o governo federal agiu de forma a sabotar os esforços de erradicação da doença. como já adiantei em uma análise em abril, esta crise ainda terá mais uma fase, a crise da dívida. Mas como esta segunda crise será resolvida? Quais serão seus impactos?

Está é uma crise que está exigindo grandes investimentos governamentais para a sua solução, já que para combater a doença pandemia é necessário o investimento maciço não apenas no sistema de saúde em si e na busca de tratamentos e vacinas, mas também fortes investimentos em programas sociais para que as pessoas não arrisquem suas vidas ao violar o distanciamento social estabelecido. Tudo isso somado elevou o gasto público de quase todos os países a patamares nunca vistos em tempos de paz.

Porém estes gastos vem num momento onde as finanças de vários países, principalmente do Brasil já não iam bem, com uma proporção dívida-PIB de 76% no final do ano passado e um déficit público que só ficou abaixo dos 100 bilhões graças a recursos extraordinários, como o leilão de parte do pré-sal. Porém, com a crise causada pela pandemia, o déficit público no acumulado do ano já está próximo dos 300 bilhões, com perspectiva de alcançar 700 bilhões de reais até o final do ano.

Tudo isso só não detonou uma crise inflacionária neste momento por conta da queda avassaladora no consumo das famílias, que tiveram uma grande perda de renda na pandemia, seja pelos programas de corte de jornada e salário, seja pela perda do emprego, amenizado parcialmente por um auxílio emergencial fraco, que não alcança o valor do salário mínimo e que é pago em intervalos incertos de tempo, mas que vem fazendo uma grande diferença para os mais pobres.

Isso poderá levar a solidificação de uma forma de auxílio emergencial depois da pandemia, como já está sendo negociado pelo governo com o congresso, mas a arrecadação continua baixa, o que pode transformar a crise da dívida em hiperinflação em breve.

Como adiantei em minha análise em abril, crises da dívida tem dois caminhos, ambos duros para o povo. O primeiro é uma crise inflacionária, com a perda de poder de compra dos salários. A segunda solução seria uma crise recessiva, com uma duríssima política de austeridade, com corte de direitos sociais, privatizações em massa e uma sensível piora dos serviços públicos.

A elite prefere a segunda opção, já que ela tende a afetar mais as camadas menos organizadas politicamente da população, enquanto a primeira opção, por conta da perda de poder de compra dos salários ser mais sentida entre os assalariados, a tendência é a mobilização massiva dos sindicatos e dos setores politicamente mais organizados do povo, com uma explosão de greves em todos os cantos, o que pode detonar mudanças políticas mais profundas.

Porém, como a reforma tributária proposta por Paulo Guedes e a criação do renda Brasil demonstra, já não há mais espaço político para cortes e recessão, mostrando justamente que o caminho que o Brasil vai trilhar é o caminho da hiperinflação. Bolsonaro está politicamente domesticado e tem pouca margem para negociação, a situação apesar de ter melhorado para ele no último mês, onde praticou o silêncio por causa do cerco fechado com a prisão de Fabrício Queiroz, mas perdeu muito capital político em seu 1 ano e meio de pura incompetência.

Apesar da escolha do animal cair como uma luva para uma nota de grande valor, já que o lobo-guará, diferentemente de outras espécies de lobos e cães, é um lobo que vive solitário representativo da solidão da nota na carteira, mas que é um sinal inconfundível que em breve o Brasil passará por uma onda inflacionária, já que a direita não tem condições políticas para uma grande austeridade econômica. O lobo pode até ter um nascimento solitário nas carteiras, mas em breve pode virar, quem sabe, mais um lobinho num carrinho de mão, sendo usado para pagar um mero cafezinho.

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