Não há palavras para descrever tudo o que aconteceu desde o primeiro caso da doença pandêmica no final de fevereiro, muita coisa aconteceu, infelizmente, boa parte dessas coisas só mostraram o tamanho do retrocesso sofrido pelo Brasil nos últimos anos e do desafio a ser superado para que venham dias melhores. A pandemia mostrou a falta de uma educação adequada, que não seja apenas decoreba, mas que de fato dê as pessoas discernimento para distinguir o falso do verdadeiro, a falta de uma economia que trabalhe para as necessidades do povo e não para o mercado internacional, mas acima de tudo, estamos numa cultura onde a vida não vale nada, onde pessoas são tão descartáveis quanto um papel de bala.

Mas também a coragem e amor ao próximo surgiram no meio do caos, pessoas que escolheram cuidar de outras pessoas, que abriram mão de estar com suas famílias, com seus amigos, com as pessoas que amam, por amor, a elas e por amor a humanidade. Por causa desse amor, passaram por situações ruins, falta de estrutura, falta de medicamentos, falta de salários, e a morte, tão presente na sua rotina, tanto dos pacientes que cuidam quanto de seus próprios colegas. Todas as mazelas que estão presentes na nossa sociedade desde sempre resolveram se materializar para atrapalhar a luta pela vida, e essas mazelas se materializaram na figura de um presidente que despreza a vida, a ciência, o seu próprio povo, que desde o primeiro dia da pandemia a desprezava completamente.

Estas 100 mil vidas, 100 mil historias, 100 mil rostos de uma catástrofe que poderia ter sido, países maiores que o Brasil, como a própria China, onde começou a pandemia, apesar do desprezo inicial que propiciou a pandemia se espalhar pelo globo, mas assim que tomaram consciência da gravidade da situação agiram muito rápido e de forma decisiva a derrotar o vírus e deter a tragédia no começo, com apenas 4,6 mil mortes segundo o relatório mais recente (09/08) da OMS, uma fração ínfima se comparado às cifras do Brasil, um país 7,5 vezes menos pessoas. 

Mas mesmo este número sendo colocado sob suspeição pelos seus críticos, ainda sim a China inegavelmente fez um bom trabalho no combate a doença, com o fechamento completo da cidade de Wuhan (que tem a população da cidade de São Paulo e é equivalente no ranking de cidades na China a cidade de Salvador), a implementação de testagem em massa, distanciamento social e traçando o histórico da localização dos pacientes para determinar possíveis focos.

Todas estas medidas fizeram falta no Brasil, onde desde os mais altos escalões do governo a pandemia foi minimizada, onde o distanciamento social foi sabotado com sucessivos setores econômicos sendo declarados “essenciais”, com não apenas uma, mas duas trocas de ministros da saúde em menos 2 meses, tudo porque o presidente queria um fantoche para empurrar goela abaixo da população sua ojeriza mortífera a ciência. Primeiro foi o Mandetta, que apesar de não ser flor que se cheire, mas só estava fazendo bem a sua obrigação. O segundo foi o Teich, que pediu para sair quando viu que se fizesse o que Bolsonaro estava mandando, que ia jogar sua carreira no lixo.

No lugar dos dois foi colocado um general, Eduardo Pazuello, que conhece tanto a medicina quanto este que vos escreve conhece de reparo de motores, quase nada. Um general que seguiu estritamente as ordens de Bolsonaro sobre Cloroquina (que está comprovado que não funciona), e sobre o fim do distanciamento social. Tudo isso levou o Brasil para esta horrível situação, 100 mil mortos e 3 milhões de contaminados, um capítulo horroroso e vergonhoso de nossa história.

Mas políticos não são os únicos responsáveis por tudo, apesar de terem muito poder e a possibilidade de reverter a situação com um bom plano baseado na ciência e em práticas que comprovadamente funcionam, mas essa mentalidade assassina deles não veio por acaso, essa mentalidade não é um mero acidente de percurso, é um amálgama de tudo que há de pior em nossa sociedade. 

Desde os anos 1970 (quem sabe até antes), está em marcha uma triste escalada de violência, que ceifa a vida anualmente, uma média de 60 mil pessoas por homicídio. 60 mil pessoas todos os anos foram mortos por outras pessoas pelos mais diversos motivos e muito pouco foi feito para deter isso. Nos últimos anos a pauta da segurança pública foi levantada pelo Lava-jatismo e por essa direita fascista, e a solução proposta foi matar mais.

Essa cultura da vida descartável no Brasil não é de agora, convivemos com 380 anos de escravização de indígenas e africanos, que eram tratados como meros objetos, que eram mortos apenas ao menor sinal de levante para que fossem tratados como seres humanos. Massacres aconteceram e ainda acontecem contra os primeiro habitantes deste continente, uma população que em 1500 era estimada em 2 milhões e hoje são de 800 mil.

Bolsonaro é o grande responsável por estas cifras assombrosas de 100 mil mortos, mas temos que refletir também sobre os seus cúmplices, uma elite que agora finge ser civilizada, mas é tão assassina quanto, e uma cultura violenta no país, onde negros e índios foram tratados como mero objetos descartáveis e desde 1500 são mortos aos milhares. Sim, é possível reverter isso, mas a pandemia mostrou que o caminho é longo e passa por repensarmos não apenas o nosso meio, mas até a nós mesmos.

Leia Também:

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.