Há certas coisas que são tão bola cantada que nem dá vontade de escrever sobre elas, pois são óbvias demais. A crise de preços que está assolando alimentação, apesar de ser um reflexo direto da alta do dólar e do descaso do governo em relação a regulação econômica, mas ainda não é a hiper inflação que o Diário falou há quase 2 meses.

Já existe uma pressão para que Bolsonaro faça duríssimos cortes no orçamento, vinda principalmente dos bancos e do mercado financeiro. Ao apresentar o seu programa de transferência de renda, rebatizado de renda cidadã, esta pressão do mercado financeiro se mostrou forte, mesmo em relação à uma política social fraca e politiqueira. Porém, Bolsonaro já percebeu que caso faça esses cortes sua pouca base popular desabará por Terra, mas também está sujeito há um processo de impeachment caso não atenda os interesses dos banqueiros. Bolsonaro se encontra numa situação similar à de Witzel quando estava perto de romper com bolsonarismo, atendendo integralmente quaisquer dos lados perderá sua base de sustentação e sofrerá o processo de impeachment acachapante. Será que ainda existe saída para Bolsonaro ou ele está completamente condenado?

Mesmo para políticos experientes e com uma boa capacidade para negociações, esta é uma situação difícil de ser contornada, já que a única forma de escapar é procurando uma solução de meio terno que resultaria em jogar o problema para a frente. A crise que o Brasil passa desde 2015, e agravada com a pandemia, não é uma crise ocasional, mas sim uma crise de esgotamento de modelo econômico.

A economia brasileira com a desindustrialização, iniciada com as política neoliberais dos anos 1990 e aprofundadas pela ascensão chinesa e o boom das commodities, voltou ao modelo neocolonial (com o qual não chegou a romper, mas estava decadente) na qual tem sua economia voltada a satisfazer as necessidades do mercado externo e não as necessidades nacionais. Isso se reflete no fato de quando o dólar (moeda de troca internacional) está valorizado em relação ao real, a inflação explode (como está ocorrendo agora).

A solução para esta questão não é simples. A longo prazo, o ideal seria a construção de uma economia nacional voltada as nossas necessidades, que mesmo com o enfraquecimento da economia global, ainda sim possa funcionar sem problemas. Mas Bolsonaro vem justamente das forças que querem manter a condição subalterna do Brasil perante os países desenvolvidos, em especial aos EUA, que o obriga a tentar uma solução meia boca, que pelo menos evite o estouro dessa crise hiper inflacionária além de 2022.

Porem, isso esbarra na vontade dos banqueiros, que querem um duríssimo programa de cortes orçamentários e de privatização para agora, pois temem que o Brasil entre em moratória (não pague as obrigações da dívida) em breve. Além disso, para eles, uma crise inflacionaria é pior que uma crise recessiva, já que a crise inflacionaria instiga a organização de greves por melhores salários, fazendo as partes mais politizadas das massas saírem as ruas, colocando mais gasolina em um fogo que está alto demais para o gosto deles.

Mais ainda, uma crise recessiva é desejável para os banqueiros, pois além de jogar a conta da crise para os setores menos organizados politicamente da população, ainda por cima, possibilita manter uma grande margem de ganhos financeiros por meio do aumento de juros, sem que ela seja corroída pela inflação, dando ainda mais gás para aquela máxima do capitalismo moderno “para ganhar dinheiro, é necessário ter dinheiro”.

A crise hiper inflacionária não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”. A atual alta dos alimentos é uma pequena sinopse do que ainda está por vir, já que boa parte dela é um sintoma deste esgotamento de modelo de que falamos, mas ainda a crise está sendo gerada e a sua forma está tomando corpo neste momento nos corredores do Planalto e do Congresso. Até para políticos experientes a situação de Bolsonaro é uma situação difícil, e possivelmente, se ele conseguir adiar a crise para além de 2022, será em suas mãos que ela estourará, isso se conseguir a reeleição.

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