A maior característica de um povo subjugado é uma cultura de autodepreciação na qual é propagada de forma massificada que determinado povo, por algum motivo relacionado a fatores locais, é inferior aos outros. No lado contrário, países que se impõe sobre os outros, altamente desenvolvidos internamente, tem um senso próprio de identidade, uma cultura que exalta seus feitos, passados ou futuros. Falo isso não porque ache que a cultura seja o molde de um povo, pelo contrário, a cultura é um sintoma do que ocorre com ele.

O Brasil de hoje é um país alquebrado, sendo o exercício de zapear o dial do rádio num dia qualquer é elucidativo sobre o atoleiro no qual nós nos metemos, a maior parte das rádios  que existem oscila do escapismo vazio (seja ele religioso ou festivo) a dor de cotovelo de um sertanejo universitário que nunca se forma. O presidente golpista e seus asseclas se revezam no exercício do rebaixamento de nosso povo, no insulto aos pobres e do pisoteio de nossa honra. A esquerda, que deveria fazer papel de oposição está quieta, anunciando que morreu.

Não estou alheio a realidade, estamos de fato em crise, numa crise sistêmica, onde o destino nos colocou uma escolha para fazermos, permanecer dependentes de potências agora decadentes, como estamos desde a chegada dos portugueses, ou rompemos com eles e seguimos um caminho próprio para nos tornarmos auto suficientes. A esquerda que sempre teve um caráter nacionalista aqui no Brasil, hoje está quieta sobre os ataques empreendidos pelo bolsonarismo contra os trabalhadores, está quieta até mesmo em relação às falas doentias desses seres.

O PT não perdeu o apoio popular porque é de esquerda e o povo foi para a direita por causa de uma maldição demoníaca, que é a explicação da direita também, se você substituir a expressão “maldição demoníaca” por “iluminação do Espírito Santo”, mas sim porque cedeu a chantagem da direita e dos banqueiros internacionais para conciliação, e a esquerda que se diz “radical” não capitaliza em cima disso justo porque não considera a luta econômica e política uma prioridade, mas sim as tais “pautas identitárias”.

Não que elas não sejam importantes falo antes desse pessoal me taxar de qualquer coisa, mas o povo precisa colocar comida na mesa, precisa ter segurança sobre o dia de amanhã, precisa garantir o futuro dos filhos e a sobrevivência diária. Além disso, política não se trata de princípios, se trata de luta para a obtenção dos meios de poder, por tanto, ela é a amoral, ela é um jogo na qual para vencer quando ocorre institucionalmente você lê e aplica Maquiavel e quando deságua para o extra-institucional você lê e aplica Sun Tzu.

Num país onde o atoleiro civilizacional está tão profundo que uma zapeada no dial das rádios AM ou FM mostram quase uma tristeza depressiva generalizada, o que mais as pessoas precisam, e nisso concordo com o Safatle em seu artigo, é de um rumo, de segurança, não apenas física, mas segurança sobre o seu amanhã. A direita, longe de dar segurança, deu a informalidade, deu a migalha sem garantias, a precariedade sem a certeza do amanhã. 

O único que já garantiu segurança no passado e pode garantir no futuro é a esquerda, mas para isso precisamos sair desse marasmo de fim de festa, dessa xepa de fim de feira e começar a nos mobilizar para derrubar esse governo de destruição nacional. Pode demorar para conseguir mobilizar? 

Sim, pode acontecer de demorar, mas somente a fala insistente, firme e solidificada na convicção inabalável em sua missão civilizatória da defesa dos mais pobres, dos que não tem defesa, dos que não tem certeza do amanhã é o que vai trazer o povo de volta para a esquerda para enfim, podermos sonhar com a conquista do poder e a construção de um novo Brasil, justo, fraterno, humano e próspero, a potência com a população mais diversa do mundo, que todo o dia mostra que é possível as diferenças conviverem de forma virtuosa para a construção de uma nova humanidade.

O Brasil, longe de ser um país “inferior” como nossos dias tempestuosos nos fazem pensar, foi o país capitalista que mais cresceu no século XX, de pessoas criativas que inventaram o balão de ar quente, o avião que levanta voo e pousa sozinho, o rádio (vide Landell de Moura), o Chuveiro Elétrico, o identificador de chamadas (a Bina), e tantas outras coisas. Um povo onde povos diversos que em nos lugares de origem não conseguem nem ficar no mesmo cômodo convivem em paz entre si. O povo brasileiro é um povo capaz de grandes feitos, o que precisamos é nos livrar dessa elite parasitária e desse presidente calhorda que xinga seu próprio povo todos os dias e fazer uma economia voltada para as nossas próprias necessidades e não para as necessidades do mercado internacional.

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