A sociedade atual é regida indiscutivelmente pela tecnologia advinda de pesquisas científicas. Foi por exemplo com o surgimento do motor a vapor que percursos que demoravam meses começaram a ser feitas em dias, a organização científica da divisão social do trabalho foi fundamental para o avanço da produtividade entre outras mudanças importantes e que foram transformadoras também no sentido político. 

O próprio motor a vapor, que encurtou distâncias e uniu pessoas de lugares distantes a preço acessível em relação às antigas formas de locomoção. Isso teve um impacto profundo no deslocamento também de ideias, pois a medida que a classe trabalhadora passou a fazer longos deslocamentos em pouco tempo, suas idéias foram disseminadas para a classe trabalhadora em outros países.  Foi assim que o anarquismo e o comunismo chegaram ao brasil, tendo profundos impactos políticos a partir dos anos 1910 em diante.

Esse é só um exemplo do impacto político que a tecnologia possui, um outro exemplo seria a organização científica da divisão social do trabalho, que possibilitou a linha de montagem e a produção em massa, ao mesmo tempo que possibilitou o surgimento das empresas monopolistas, e o começo de um planejamento centralizado da economia.

Que foi danoso para as nascentes república representativas, pois a centralização dos meios de produção possibilitaram a centralização das instituições políticas, criando uma tecnocracia que cada vez menos respondem aos anseios da população.

Com o surgimento da internet e das redes sociais uma grande contradição ficou evidente no nascente meio, de um lado as fontes de informações foram descentralizadas, com o surgimento de mídia alternativa, jornais alternativos, blogs, vlogs entre outras formas de produção de conteúdo. 

Ao mesmo tempo, grandes empresas passaram a ter o monopólio dos meios de indexação e de busca de informação, além de determinar com isso o alcance que elas tem. Como por exemplo o Facebook, Twitter e Google, que em si não são produtores de informação, mas que são grandes indexadores de conteúdo (mesmo as rede sociais), podendo determinar por meio de seus algoritmos, o que será propagado com mais facilidade e o que está condenado ao ostracismo, até mesmo censurando produtores e conteúdos que de alguma forma incomodam eles.

Como no caso recentemente noticiado aqui de uma onda de censura a perfis ligados ao governo, a mídia iraniana e a perfis simpáticos a eles após o assassinato do comandante Soleimani.

Por causa da descentralização da produção de conteúdo, diversos governos e instituições já estão se mobilizando para que esses grandes indexadores digitais passem a serem grandes censores desse conteúdos produzidos digitalmente. Assim como no passado, que a descentralização da produção de livros por causa da prensa de Gutemberg motivou uma campanha contra os livros ditos “hereges”, estabelecendo um sistema de censura às obras literárias, o index librorum prohibitorum, há atualmente uma grande campanha, para que em nome do combate às “fake news”, as grandes companhias indexadoras passem a censurar conteúdos que carregam ideias indesejáveis.

As mudanças tecnológicas, longe de serem inócuas politicamente, geram um enorme impacto em todo o panorama geral. Dizer que essa ou aquela tecnologia por si só é ruim é um pensamento errôneo, fruto do desconhecimento das possibilidades tecnológicas, como por exemplo a própria internet, que com seu caráter altamente contraditório, descentralizou os meios de produção de conteúdo a um nível somente visto com o surgimento da prensa de tipos móveis de Gutemberg, mas ao mesmo tempo, altamente centralizada em termos de indexação de conteúdo, onde grandes empresas monopolistas definem por meio de seus algoritmos aquilo que será propagado com mais facilidade ou o que está condenado ao ostracismo.

Somente com a liberdade de expressão é que se consegue colocar uma camisa de força no estado, que por si só é autoritário. Qualquer impedimento à liberdade de expressão, mesmo que a pretexto de controlar algum suposto “mal” trazido com a tecnologia, ou o impedimento de avanços tecnológicos para se evitar a mudança que com o progresso é inevitável, são alimentos não só para a ignorância, mas também para que o autoritarismo e fascismo grasse voos maiores na nossa sociedade. O estado se alimenta da repressão, que se alimenta do medo do desconhecido e do desconhecimento das possibilidades de mudança. somente a liberdade de expressão e de pesquisa científica é que garante que o fascismo não retorne.

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