O ano de 2019, apesar de ter sido de refluxo no Brasil, no resto do mundo foi agitado. Grandes manifestações varreram os cinco continentes e os nossos países vizinhos não poderiam deixar por menos. Equador, Chile, Peru, Haiti, Venezuela, Colômbia, além de três  conturbadas eleições na Argentina, Uruguai e na Bolívia. 

Todas com características, metas e programas políticos diferentes, mas também são uma clara amostra de um mundo em ebulição, de um sistema de repúblicas representativas que hoje não conseguem mais representar. Nesse artigo não vou me debruçar em detalhes de cada uma, mas em diferenças e características comuns em todas elas.

Há na América Latina, pelo menos três grandes fenômenos político-econômicos com origens comuns, mas que se desenrola, de diferentes formas nos diferentes países da região, causando as grandes ebulições.

Crise das commodities

Os países da América Latina são grandes exportadores de commodities, os preços dessas commodities determinam a prosperidade ou o fiasco econômico das nações latino americanas. É um modelo econômico que não visa o abastecimento interno, mas sim a exportação, principalmente para as grandes nações industrializadas do norte e de 20 anos para cá também a China.

Por causa disso, flutuações na demanda de alguns produtos como o Cobre (para o caso chileno), ferro, soja, trigo e petróleo acabam tendo um grande impacto na prosperidade de todo o continente, comparemos abaixo os preços das commodities com o crescimento do PIB das nações latino americanas. Primeiro os gráficos das Commodities observem que todos eles têm uma grande quebra entre 2013 e 2014: (fonte: Investing)

Petróleo Brent
Trigo
minério de ferro refinado
Cobre
soja

Agora o PIB geral da América Latina e dos países que convulsionaram nesse período: (fonte: CEPAL/ONU)

PIB nominal e PIB per capita da América Latina como um todo
Brasil (percentual de crescimento)
Argentina (percentual de crescimento)
Bolívia (percentual de crescimento)
Chile (percentual de crescimento)
Colômbia (percentual de crescimento)
Equador (percentual de crescimento)
Haiti (percentual de crescimento)
Peru (percentual de crescimento)
Uruguai (percentual de crescimento)
Venezuela (percentual de crescimento)

Notem que em todos eles, ou o PIB entrou em recessão, ou teve uma queda acentuada no crescimento econômico, uma consequência direta da quebra das commodities, que acabou diminuindo sensivelmente a qualidade de vida em todos eles (em muitos já não estava bom).

Essa queda econômica da qual ainda não se recuperou o subcontinente, levou a um estreitamento das opções de políticas públicas a serem levadas a cabo para combatê-las, o que deu margem ao segundo fator, que em anos de bonança não teria gerado o caos que gerou.

Lava-Jato

A Lava-Jato como já é de conhecimento público por conta do vazamento de conversas privadas pelo site Intercept Brasil entre o ex-juíz Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, ia muito além da investigação de crimes de corrupção que supostamente foram descobertos em cascata, mas sim uma operação política organizada a fim de desestabilizar o governo brasileiro e desmontar todo o aparato de sustentação do regime político até então.

Porém, o Brasil também exercia uma larga influência entre seus vizinhos mais próximos e alguns países pobres principalmente da África. Quando a Lava-Jato se estendeu para as relações internacionais de empresas brasileiras, diversos vizinhos nosso sentiram o terremoto político atingir também seus centros de poder.

O caso mais notório é o caso peruano, onde praticamente todos os ex-presidente pós ditadura de Alberto Fujimori, ou foram presos ou se mataram por causa das implicações da Lava-Jato no país. Essa situação levou o país a encarar uma grave crise política que pode levar de volta ao poder os seguidores do antigo ditador condenado por corrupção (em outro escândalo) e crimes contra a humanidade Alberto Fujimori.

Outros países que também sentiram o impacto da Lava-Jato na América Latina foram o Panamá, Equador, Guatemala, Antigua e Barbuda, Argentina, Chile, Colômbia, El Salvador, República Dominicana e México.

Crise do Neoliberalismo-Monetarismo

Antes de nos desdobrarmos nesse fator em questão, é bom esclarecermos que o Neoliberalismo é diferente do liberalismo clássico pelas questões para o qual ele dá prioridade em suas políticas. 

O liberalismo clássico é voltado para as garantias das liberdades democráticas, como a liberdade de expressão e informação, liberdade de manifestação, laicidade do estado e liberdade religiosa para ter a religião que queira ou não ter religião (defendidas por essa página mas com uma pauta para além delas). 

Já o neoliberalismo, com origens que remontam a 1950, se chamando inicialmente de monetarismo, defende que o estado não intervenha na economia, pois como ele é um ator de grande impacto nela, sua ação “confunde” e “distorce” os sinais usados pelo mercado. Por causa disso, para eles, o estado só deveria se ocupar em manter a saúde da moeda corrente (por isso o nome de nascimento ser justamente monetarismo).

O enfoque do neoliberalismo é diferente do liberalismo clássico, tanto que os pais do neoliberalismo, Milton Friedman e no Brasil Roberto Campos, trabalhavam lado a lado com ditadores sanguinários, como Pinochet. Recomendo o livro da Jornalista Naomi Klein e o documentário homônimo Doutrina do Choque e o documentário Catastroika. Esclarecimento feito.

O desmonte do estado de bem-estar social promovido nos anos 1990 em vários países no mundo, para dar alguma sobrevida para a economia, gerou grandes efeitos a curto e longo prazo. A curto prazo teve algum crescimento econômico, mas que não gerou o bem estar esperado, pois, esse crescimento econômico não se refletiu em melhoria efetiva das condições da população, mas em baixos salários. Por causa ainda do desmonte dos sistemas de seguridade social, serviços que antes eram oferecidos pelos estado passaram a ser pagos diretamente pelas pessoas, o que resultou em aumento do endividamento das famílias e na piora das condições de vida dos mais pobres.

Essa perda do colchão social acabou se refletindo numa polarização da sociedade, até mesmo nos EUA, um país que investiu pesado na propaganda anticomunista, e que agora tem um crescimento do número de comunistas. Ao mesmo tempo, a elite assustada se congrega no apoio de grupos de extrema direita fascistas em todo o mundo não sendo diferente na América Latina.

Todos esses fatores combinados, dois a nível local e um fenômeno global, a situação na América Latina está muito fragilizada. No centro dessa tempestade, o subcontinente está sentindo os tremores de um sistema decadente, que para sobreviver corrói os poucos avanços que concedeu para a humanidade.

Essa crise, longe de ser apenas um fato latino americano, longínquo para o Brasil. Esses três fatores primeiro se congregaram juntamente aqui no Brasil, e resultaram no Golpe de 2016. Em algumas partes da América Latina como na Bolívia, na Venezuela e no Uruguai é a repetição, em maior ou menor escala, do que ocorreu em 2016. Já no Chile, Equador e Colômbia, o que está desabando são justamente governos direitistas (no caso Equatoriano vindo de uma traição similar a ocorrida no Brasil), que são sinais de alerta para que a direita golpista no Brasil tome cuidado na dosagem de neoliberalismo a ser aplicado, pois pode sofrer grande resistência nas ruas, até mesmo ser derrubado por elas.

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