charge de Carlos Latuff

Esse é um daqueles momentos no Oriente Médio em que dias parecem anos, mal escrevi no resumo semanal da semana passada que a morte do Comandante Soleimani havia unido o Irã contra os EUA, que um nova nova tentativa de dividir o país surgiu. Na noite de quarta-feira (8), no mesmo momento da ofensiva iraniana contra os EUA, um avião da Ukraine International Airlines, um Boeing 737, caia após a decolagem do aeroporto de Teerã, matando 176 pessoas a bordo.

O Irã admitiu depois que o acidente foi causado por um erro humano da Guarda Revolucionária, que confundiu o avião com um míssil balístico. As investigações ainda estão sendo conduzidas para se descobrir quem foi que tomou a decisão de derrubar o avião e o porquê dele ter feito isso.

Mas os abutres imperialistas já se mobilizaram para capitalizar politicamente diante da tragédia que se seguiu. Após o anúncio de que o acidente foi causado por um erro humano da Guarda Revolucionária, manifestações eclodiram em todo o Irã, mas em uma delas, na noite de sábado, o embaixador britânico em Teerã Rob Macaire, foi detido.

O embaixador no momento de sua detenção estava fazendo um discurso, agitando a manifestação em frente a Universidade Amir Kabir, contra o governo iraniano, se aproveitando a tragédia ocorrida. Logo após sua detenção ele foi liberado, sendo que na manhã de domingo foi chamado para dar explicações sobre o incidente.

Sim, o que aconteceu com o avião de fato foi um grande erro cometido pelo Irã, admitido pelo próprio governo iraniano, já começando pelo fato de que liberaram a decolagem de um avião de passageiro no meio de uma ofensiva militar área contra duas bases dos EUA, mas nenhum país tem direito de se aproveitar da tragédia e subsequente indignação levantada para realizar uma mudança de regime.

Em qualquer parte do mundo a presença de um embaixador numa manifestação anti governo já seria considerada, no mínimo, uma interferência indevida nos assuntos internos de qualquer nação. Some a isso o fato da Grã-Bretanha ser uma aliada militar do país que na semana retrasada matou o comandante militar da principal força armada do país.

Caso ainda não tenha se convencido da gravidade da situação, imagine, só por um instante, que em uma manifestação pelo fora bolsonaro o embaixador da Rússia estivesse presente e que fosse detido enquanto discursava na manifestação. Não é preciso muita imaginação para visualizar que algo do género iria causar uma grande gritaria por parte da direita contra a interferência russa na política interna, ou mesmo teorias conspiratórias do porque a Rússia estaria interessada em derrubar Bolsonaro.

As grandes potências mundiais não estão interessadas por justiça, ou tocadas pela morte de 180 pessoas, o verdadeiro interesse mesmo é derrubar o governo do Irã para solidificar seu domínio militar no Oriente Médio e o país é a maior ameaça a esse domínio, por isso o assassinato do comandante, por isso as sanções comerciais, por isso a gritaria contra o programa nuclear iraniano.

O Irã hoje, apesar de ser um governo controlado por clérigos islâmicos, mas é de longe mais democrático do que muitos países da região que são aliados dos EUA, como por exemplo, a Arábia Saudita, que é uma monarquia teocrática absolutista, onde não há eleições, não há liberdade de expressão alguma, vide o caso do jornalista Jamal Khashoggi, onde, apesar das reformas recentes do príncipe Mohammed Bin Salam, ainda tem uma guarda religiosa muito forte dentro do país. 

Além dIsso a Arábia Saudita leva a cabo uma invasão ao Iêmen, país vizinho que passou por uma revolução em 2014, levada a cabo por rebeldes Houthis, que derrubaram o governo de Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi, que se refugiou na Arábia Saudita, e que hoje essa invasão e o subsequente bloqueio ao país é considerada a pior crise humanitária da atualidade.

A ofensiva contra o Irã vai se intensificar ainda mais nos próximos dias e meses, não por meios militares como muitos imaginavam, mas por meios políticos internos, já se desenha no horizonte um novo intento de revolução colorida, que se aproveitando de uma tragédia, que sim é grave, mas que de forma alguma é justificativa para a interferência externa na política interna do país, não podemos cair em mais uma armadilha da propaganda de guerra dos EUA.

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