Na sexta-feira (25) o ex-juiz e então ministro da justiça Sérgio Moro após pressão de Bolsonaro para trocar o Delegado-Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, se demite do cargo. Mais a noite, Moro vazou via Jornal nacional, conversas com Jair Bolsonaro e a deputada da base governista, Carla Zambelli (Moro foi padrinho de casamento dela), na qual mostrava Bolsonaro pressionando Moro a trocar o Delegado-Geral por conta de investigações que prejudicava o demolidor em chefe e Zambelli oferecendo vaga no STF em troca da anuência de Moro a tal ato.

No dia seguinte a deputada Zambelli em entrevista à CNN Brasil (boa parte dos registros da entrevista censurada pela CNN a posteriori), Zambelli publicou mais conversas entre ela e Moro, feita de tal forma a passar a sensação que um acordo estava formado para Sergio Moro ser indicado ministro do STF. Porém essas mensagens acabaram revelando mais do que a própria Zambelli queria. Para ajudar na análise transcrevi as mensagens, tanto de Moro publicadas pelo JN quanto as publicadas por Zambelli na CNN, e foram colocadas em ordem cronológica para olharmos o que mais elas nos dizem, abaixo as mensagens de todos os prints em uma linha do tempo: 

Transcrição da Conversa entre moro e Zambelli

20/04/2020 (print da Zambelli, citado por Vera Magalhães)

  1. Zambelli 23h37: https://www.oantagonista.com/brasil/pgr-cobra-conclusao-de-investigacoes-sobre-maia/
  1. Zambelli 23h38: Ministro, investigação neste caso é da PF?

21/04/2020

  1. Moro 06h15: junto ao STF
  1. Moro 06h16: https://oglobo.globo.com/brasil/pf-acusa-rodrigo-maia-cesar-maia-de-tres-crimes-por-repasse-da-odebrecht-23905900 
  1. Moro 06h16: De agosto do ano passado
  1. Moro 07h47: Esta a PGr Raquel arquivou. Há outras investigações em curso

(espaço de 2 dias print da Zambelli)

23/04/2020

  1. Zambelli 15h25: Por favor, fica!
  1. Zambelli 16h04: (gráfico do google de intraday do pregão de 23/04/2020, enfatizando queda após anúncio de atrito entre Moro e Bolsonaro)
  1. Zambelli 16h04 legenda da imagem: Não saia, por favor. O Brasil vai entrar em colapso
  1. Zambelli 18h43: Ministro, por favor, me ouça só um pouco
  1. Moro 18h44: ola
  1. Zambelli 18h44: O Sr é muito maior que um cargo
  1. Zambelli 18h44: O Brasil depende do sr estar no MJ (acrônimo de ministério da justiça)
  1. Zambelli 18h44: Entendo sua frustração
  1. Zambelli 18h45: Vamos amanhã marcar 07h00 com o PR lá no Alvorada
  1. Zambelli 18h45: A gente conversa e ele lhe garante a vaga no STF este ano
  1. Moro 18h45: Já falei com ele hoje

(intervalo de 3 minutos, print do JN)

  1. Zambelli 18h48: Já fui presa defendendo suas ideias e ideais
  1. Zambelli 18h48: Por favor, ministro, aceite o Ramage
  1. Zambelli 18h48: É vá setembro para o STF
  1. Zambelli 18h48: Eu me comprometo a ajudar
  1. Zambelli 18h48: A fazer o JB prometer
  1. Moro 18h49: Prezada, não estou a venda.
  1. Zambelli 18h49: Ministro, por favor…… milhões de brasileiro vão se desfazer
  1. Zambelli 18h49 resposta a mensagem 23: Eu sei
  1. Zambelli 18h49: Por Deus eu sei
  1. Zambelli 18h50: Sec existe alguém no Brasil que não está a verba é o sr
  1. Moro 18h50: Vamos aguardar, já há pessoa conversando lá.

(intervalo de 7 minutos print Zambelli)

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/04/25/carla-zambelli-mostra-mensagens-e-diz-que-moro-queria-ser-indicado-ao-supremo
  1. Moro 18h57: Prezada, pode conversar com ele, sem problemas
  1. Zambelli 18h57  resposta a ela mesma (msg: Fabiano Bordignon? Esta é sua escolha?): Este é o nome?
  1. Zambelli 18h57: Pra convencê-lo?
  1. Zambelli 18h57: Ou há outro
  1. Moro 18h57: Carla converse lá
  1. Zambelli 18h58: Ok
  1. Zambelli 19h05: Falei
  1. Zambelli 19h05: O PR não quer que vc saia
  1. Moro 19h07: Nem eu quero sair mas preciso de condições de trabalho
  1. Zambelli 19h08: O Valeixo pediu demissão?
  1. Zambelli 19h09: O PR propôs o seguinte:

Já que Valeixo pediu para sair, deixa o cargo vago por algumas dias.

Vocês conversam com calma, se conhecem melhor (que está faltando desde o começo do mandato) e decidem juntos um nome.

  1. Zambelli 19h09: O que você acha?

(mensagem cortada aparentando conter emojis)

(intervalo de 15 minutos, print Zambelli)

  1. Zambelli 19h26: (emoji de decepção)
  1. Zambelli 19h28: Se o PR exonerar o Valeixo, o sr topa conversar para ver um nome que atenda a ambos?
  1. Zambelli 19h29: Ou seja, a sua permanência depende da permanência do Valeixo?
  1. Moro 19h32: Carla, não vou tratar essas questões por escrito. O PR já tem todas as informações
  1. Zambelli 19h32: Tá bem. Desculpe.
  1. Zambelli 20h53: Ministro, falei com o Planalto.

Tire esta sexta e vá para casa.

Domingo o PR e Michelle convidaram vc, Rosângela, eu e Aginaldo para um almoço.

Vamos resolver isso de uma forma a ajudar o Brasil.

O Sr é um pilar de sustentação deste governo.

  1. Moro 20h55: Rosângela está em Curitiba
  1. Zambelli 20h56: Eu sei…..
  1. Moro 20h56: Eu até posso ir mas eventual convite teria que partir dele me parece
  1. Zambelli 20h56: Certo. Partirá.

Análise das conversas

As mensagens mostram, em primeiro lugar, a forte pressão para que houvesse interferência nas investigações da Polícia Federal, no caso do print da Zambelli, como publicado pela jornalista Vera Magalhães, para que a Polícia Federal fizesse uma devassa na vida de Rodrigo Maia, presidente da câmara dos deputados e pessoa que Bolsonaro escolheu como bode expiatório, apesar de Maia contribuir muito para Bolsonaro.

Porém, o que mais chama a atenção na conversa é o rumo que as negociações para que Moro ficasse no cargo tomaram. Apesar de Carla Zambelli apresentar Moro como alguém que está interessado apenas pelo cargo de ministro do STF, ao colocar as mensagens em uma timeline consistente, é de se notar que no intervalo entre o print apresentado por Moro no JN e o 4° print de Zambelli, houve um gap de 7 minutos encerrado com uma mensagem de Zambelli indicando que a condição para que Moro ficasse no cargo era ter alguém indicado por ele como Diretor-Geral da PF, sendo o nome preferido de Moro, Fabiano Bordignon, diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional e ex-diretor da PF em Foz do Iguaçu.

Isso comprova a análise colocada por esta humilde página desde o primeiro desentendimento deste ano entre Moro e Bolsonaro, em Janeiro, quando colocamos que o principal objetivo de Moro à frente do ministério da justiça não era virar apenas ter um cargo, ou virar ministro do STF, muito menos virar um presidente democrático, mas sim de articular as forças repressivas para que o servissem durante um governo ditatorial do ex-juíz, isso agora está absolutamente claro, pois quando é oferecido a ele a vaga no STF ele recusa.

Logicamente ter esse gap de 7 minutos trazido à luz, deixaria as claras essas negociações, que nem Moro, muito menos Zambelli queriam que viessem a tona. Com certeza envolvem termos a mais que nenhum dos dois querem que venha a público, mas só essas ausências deixam claro que rolou uma negociação e o que foi negociado não foi apenas o STF, mas sim o grau de controle de Moro dentro do ministério.

Mostra também que em certa medida Bolsonaro sabe das pretensões ditatoriais de Moro e do quão frágil é a sua posição junto a de Moro. Alguém que controla o aparato repressivo como Moro ainda controla (não nos enganemos com sua demissão), deixa Bolsonaro vulnerável a táticas de lawfare que já foram usadas para derrubar Dilma em 2016. Por isso, Bolsonaro quer tanto tomar o controle da PF e do proprio ministerio da justiça em suas mãos.

Tudo isso mostra o covil de cobras que é o governo Bolsonaro, as pretensões ditatoriais de Moro, as táticas nada republicanas da quadrilha controlada por Bolsonaro e sua familicia. Deve ser feita uma limpeza completa no estado brasileiro para retirar o poder destes demolidores da nação, que não estão interessados se você morre ou não nos hospitais por conta da pandemia, o importante para eles é entregar tudo para seus patrões estadunidenses.

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