Até Bolsonaro no alto de sua pouquíssima inteligência já percebeu que Paulo Guedes não é bom para fazer planos de contingência ou dar dinheiro para pobre. Ontem (26) Bolsonaro detonou publicamente o plano que estava arquitetado pela equipe econômica do governo e que havia sido vazado no dia anterior ao dizer que “não posso tirar do pobre para dar ao paupérrimo”. O plano de Paulo Guedes era aumentar o valor e a abrangência do atual Bolsa Família (que seria rebatizado de “Renda Brasil”) mas em troca iria acabar com o abono salarial (que beneficia principalmente aqueles que recebem até 2 salários mínimos) e o Farmácia Popular que beneficia a população com a gratuidade de medicamentos de uso contínuo para hipertensão, diabetes e asma, além de oferecer desconto para outros remédios igualmente importantes.

O fim do abono salarial (que só não tem mais abrangência por conta da falta de bancarização da população, algo parcialmente resolvido pela Poupança Social Digital) acabaria com mais uma fonte de renda para uma população que apesar de trabalhar com carteira assinada, mas ainda sim tem grandes dificuldades para fechar a conta no final do mês. Já o fim do Farmácia Popular diminuiria muito o acesso da população a remédios de uso controlado, o que faria com que o número de AVCs, infartos e amputações por diabetes aumentassem muito, sobrecarregando ainda mais o já sobrecarregado SUS. Tudo isso deixa Paulo Guedes na corda bamba, já que apesar dele ser um Bolsonarista de sapatênis, mas sua incompetência para criar programas que alavanquem a candidatura de Bolsonaro a reeleição joga dúvidas sobre sua permanência, porém como isso iria afetar o Bolsonarismo?

É inegável que o Brasil está sendo fortemente pressionado pelos bancos, para que em plena crise econômica causada pela pandemia faça uma forte política de austeridade contra a população. Na última vez que a ala desenvolvimentista dos militares que controlam o governo tentaram fazer uma política para furar o teto de gastos (política imposta pelos bancos para sugar o máximo de orçamento possível), Paulo Guedes, a partir do congresso, ameaçou Bolsonaro de impeachment, fazendo com que o presidente fizesse uma coletiva de imprensa para dizer que era um servo obediente do mercado, chiando depois dizendo que “faltou patriotismo” a ele.

Agora, Bolsonaro colocou para Paulo Guedes que a única forma de se reeleger é ter uma política social que possa chamar de sua. O ministro da economia, que fez sua carreira em ser um bom serviçal de banqueiro entrou em crise existencial, já que nunca na vida dele teve que fazer algo para beneficiar diretamente pobre. Com a missão na mão, acabou fazendo uma bobagem tão grande a ponto de ser fritado pelo próprio chefe, e olha que Bolsonaro também não é muito fã de pobre. 

Só foi Bolsonaro jogar o plano de Guedes publicamente no lixo que o mercado reagiu veementemente contra o anúncio, com a queda da bolsa de valores e alta do dólar. Bolsonaro é um servo do mercado, mas está vendo que se for um servo absoluto da mão invisível, que a mão visível da política irá varrê-lo da cena pública. O neoliberalismo representado por Guedes está em xeque não apenas no Brasil, mas também no resto do mundo, já que a única forma de manter um mercado consumidor mínimo é fazendo políticas de renda mínima, mas isso leva a mais endividamento e os bancos estão muito afoitos para chupinhar os cofres dos países.

O xeque que a pandemia colocou sobre o neoliberalismo coloca o bolsonarismo num beco sem saída, onde ele é pressionado, de um lado, a seguir estritamente a cartilha dos bancos e ficar com isso mais impopular que o Temer, ou fazer algum arremedo de política social para se reeleger, mas com os bancos agindo para tirá-lo do poder (e pretextos legais tem de sobra). 

Talvez os bancos cheguem a uma solução de meio termo com ele, deixando ele implementar algumas medidas sociais cosméticas, mas pedido para centrar fogo no corte do que resta de direitos trabalhistas, na privatização absoluta e sem retorno dos serviços públicos e na retirada de direitos democráticos. Quanto a Paulo Guedes, esse talvez não tenha mais tanta saída, já que se mostrou incompetente até para os padrões neoliberais, e olha que a situação é muito complexa até mesmo para uma pessoa extremamente competente, algo que definitivamente Guedes não é.

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