Areópago de Atenas

Apesar da definição de política ser algo que parece óbvio, mas as circunstâncias sociais, econômicas, e culturais podem interferir enormemente na percepção do que pode ser ela. Na atualidade, há uma confusão muito comum de que a política deve ser feita para o bem comum de toda a sociedade, que ela é um fenômeno partidário, e para se afastar da disputa política basta apenas não ter ligações diretas com partidos políticos para estar livre desse “pecado”. Mas o que é exatamente a política?

A política tem intrínsecas ligações com o estado, com o que ele faz, e consequentemente, seu impacto direto em nossa vida cotidiana. Os impostos cobrados, a rua esburacada ou asfaltada e limpa, a qualidade no fornecimento de serviços básicos como água e saneamento, coleta de lixo, luz, e internet (a quase 30 anos atrás era algo tão distante a rede mundial e hoje já é vital, como as coisas mudam rápido?). Se a condução desses serviços será feito de forma pública ou privada, concorrencia livre ou monopólio, se será tarifado, como será tarifado, tudo isso depende de pareceres dados por políticos ou por burocratas e tecnocratas a mando deles.

Então vem aquela velha questão aristotélica de que a política deve ser feita para o bem comum, de que ela deve ser feita para o bem estar de todos, e mesmo 2500 anos depois dos escritos dos socráticos, ainda tem uma miríade de pessoas que repetem a mesma coisa. Mas qual era a sociedade na qual estavam inseridos os socráticos, Aristóteles, Platão e Sócrates?

A sociedade na qual esses escritos foram feitos era a civilização grega, onde Atenas, que era a mais poderosa, tinha um sistema político único até então dominado por reis “divinos”. Na cidade-estado de Atenas da época, não existia esse rei, o debate público ocorriam na Ágora, uma praça no centro da cidade, onde tudo era discutido, onde os cidadãos tinham voz e iam para resolver suas disputas, fossem elas de natureza interpessoal, no Areópago, ou de natureza social geral, no Bulé (o que seria hoje um parlamento).

Apesar de muito limitada a cidadania em Atenas, já que só eram considerados cidadãos os homens livres, maiores de 18 anos, filhos de pais e mães Atenienses, todos os cidadão poderiam participar das decisões tomadas, e por tanto, para que alguém conseguisse implementar seus interesses para todos, ele era obrigado a negociar isso de forma ampla com todos os cidadãos ativos na política da cidade. Portanto, para que a ação política em Atenas tivesse algum efeito prático era necessário que o agente político soubesse negociar e fechar acordos com pelo menos a maioria dos outros atores políticos.

Mas se prestar atenção no que foi dito no parágrafo anterior, há de se notar que a política não é um fim em si mesma, que ela é uma forma de se obter terceiros objetivos. Aqui coloco uma questão, se a política é o meio para se conseguir outros objetivos, seria o objetivo da política o bem comum, ou a política é o veículo pelo qual se consegue os meios de se chegar a um objetivo?

Coloco essa questão porque se a política tem como objetivo o bem comum, o simples exercício dela, feito para o bem comum já bastaria, para que, se bem intencionado os atores, ele fosse alcançado. Mas num parlamento, desde a Bulé dos atenienses, a única coisa que ocorre são acordos para que recursos sejam mobilizados para um determinado fim.

Um exemplo prático disso é o fato de que a principal atribuição de todos os parlamentos minimamente democráticos é a definição do orçamento público, onde será gasto determinado dinheiro, como será gasto, quem vai pagar a conta e como vai pagar a conta, se será por meio, por exemplo, de impostos embutidos nas mercadorias, imposto progressivo, taxa única para todos independente da renda. É isso que um parlamento decide em comum acordo com um presidente da república ou um primeiro-ministro (a depender do país).

Por tanto, não é a política que deve ter como objetivo o bem comum, mas sim o exercício do poder político, a política em si é a disputa dos meios de ação social pelas diferentes forças sociais, que, por meio dele implementam sua pauta para atender a seus interesses. Esses meios de ação podem ser econômicos, militares, midiáticos entre outros, mas são acima de tudo, meios de mobilização das pessoas para seguir determinado objetivo.

Como a política é a disputa pelos meios de ação de massas, logo, ela vai muito além de meios institucionais, como as eleições e os partidos políticos. Por exemplo, uma emissora de televisão é um meio pelo qual se pode mobilizar as massas para se alcançar um determinado objetivo. O que ele propaga para as pessoas, por mais inócuo que possa parecer, pode ser usado como forma de propagar uma determinada ideia que atende a um objetivo comum, ou ser um catalisador para isso. Como sabemos das aulas de química, um catalisador ele em si não faz parte da reação química em si, mas sua presença no meio em questão facilita a ocorrência da reação a medida que ela diminui a quantidade de energia necessária para que ela ocorra.

Mesmo coisas aparentemente inócuas, hábitos culturais, pensamentos de senso comum, determinadas correntes artísticas, relações econômicas, tudo isso, ou funcionam como parte de um processo político, ou é produto de um processo, ou ainda é um catalisador para que ele ocorra. Um exemplo disso são as relações de trabalho, cujas as modificações nelas levaram a profundas mudanças políticas.

Relações servis que eram sustentáculo de monarquias feudais, quando se especializaram e se mercantilizam passaram a ser a sustentação de monarquias absolutistas burocratizadas e centralizadoras. Depois com o surgimento do trabalho assalariado e o colapso dos feudos as monarquias absolutistas deram lugar a repúblicas representativas e monarquias parlamentaristas. 

Por fim com a produção em massa, os avanços na comunicação e a centralização dos meios de produção vieram as reivindicações socialistas e o surgimento da planificação central da economia, tanto no mundo capitalista (com o surgimento das empresas monopolistas que esmagaram e distorceram o capitalismo de livre-concorrência) quando no mundo socialista (com os planos quinquenais), e a reação ao avanço socialista que é a constituição dos estados de bem estar social, fundamentais para os anos de bonança dos anos 1950, 1960 e 1970 do século passado. Por fim estamos agora num meio termo, entre a quebra das instituições representativas, ao mesmo tempo, grandes companhias centralizam quantidades imensas de informação e com isso o controle de boa parte de nossas vidas, junto com a descentralização dos meios de informação, comparável somente a ocorrida na época do surgimento da prensa de tipos móveis na Europa.

Mesmo relações, que a princípio não parecem ter qualquer ligação com política está ligado de forma íntima com ela. A política é a disputa para ver quem decide onde serão mobilizados os recursos de uma sociedade inteira e isso passa muito além dos meios institucionais normais, são coisas do dia a dia, que parecem distantes para nós, mas com grandes impactos.

Esse foi um texto feito não para ser acadêmico, mas um texto didático para educação política, pois como disse no manifesto de fundação do site, ele foi feito com o objetivo de levar a razão ao debate político, combater as mentiras da direita reacionária e obscurantista, anti-povo, anti-pobre e anti-brasileiro, e para isso é necessário além de informação, formação política para que se entenda como o mundo ao nosso redor funcione, para que a partir disso nos tornemos agentes de transformação.

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