O Instituto Datafolha publicou hoje (14) a pesquisa de aprovação do governo Bolsonaro, que apesar de ainda ser a pior aprovação entre os presidentes em primeiro mandato no mesmo período, mas é a melhor popularidade desde o início do mandato de Bolsonaro em janeiro de 2019. Esse aumento pelo que é mostrado foi motivado por dois fatores, sendo o primeiro deles a “domesticação” de Bolsonaro pela elite, que o cercou, de um lado, pelo inquérito das fake news, e de outro, pela prisão de Fabrício Queiroz e o avanço do inquérito das rachadinhas.

Mas o principal fator mostrado na pesquisa para a alta na popularidade de Bolsonaro foi a extensão do auxílio emergencial. Isso ensina uma importante lição para todos, mas principalmente para os moralistas de análise política de que você pode ser corrupto, amigo de miliciano, assassino genocida, negacionista da ciência e da realidade, destruidor do meio ambiente a tal ponto de transformar em noite agourenta o dia de uma cidade a milhares de quilômetros de distância, realizar cortes cavalares na verba da educação, maquiar números de uma pandemia, criar uma máquina de arapongagem contra opositores políticos, entregar de mão beijada o país em troca de algumas camisetas e uma promessa vazia, xingar o país que mais compra produtos do nosso país por pressão do outro país que fez a promessa vazia, mas se você garante que o povo tenha algo para comer (o que é obrigação do estado) e mostre algo que ele acredite que possa solucionar os seus problemas ECONÔMICOS (ainda que não tenha base na realidade), o povo vai te seguir.

A esquerda, ainda entorpecida pelas derrotas causadas pelo golpe de 2016, não se atentou a este detalhe, claro que partidos não podem por lei a manter redes de assistência social, mas os sindicatos e as centrais sindicais podem. Ainda que a reforma trabalhista de 2016 tenha secado os sindicatos ao ponto da quebra financeira, mas ainda sim são órgãos estruturados que podem mobilizar os militantes para ajudar os mais necessitados. Porém, os sindicatos resolveram suspender o atendimento presencial justamente quando os trabalhadores mais necessitavam. O distanciamento social era (e ainda é) muito necessário e se deve lutar para que os trabalhadores possam fazê-lo com segurança financeira, como esta página já falava no final de março, mas se você quer o poder político, o poder de transformar a realidade das pessoas por meio da política, é necessário arregaçar as mangas quando o povo mais necessita, independentemente dos riscos. 

O poder pelo qual a política rege a disputa, não se trata de mando pura e simplesmente, mas sim da condução da sociedade rumo ao bem comum, ainda que as arestas tenham que ser aparadas para que se prossiga o avanço da humanidade. Mas o poder estatal é o único poder capaz de reunir a maior quantidade de recursos possíveis para que grandes e arriscadas mudanças podem ser empreendidas.

Como mostra a própria pesquisa, o maior motivo pelo qual Bolsonaro ganhou popularidade foi o auxílio emergencial, mas como analisado anteriormente pela página em dois artigos (O dragão da inflação em pele de lobo e O abismo neoliberal) não durará por muito tempo, pois o endividamento público está disparando rapidamente e só há duas soluções possíveis numa crise de dívida, hiperinflação que põe lenha na fogueira da luta política e a dobradinha aumento de impostos/corte de verbas que joga milhões na miséria total, mas que gera surtos de raiva e violência despolitizados. 

Antes que falem “mas as mobilizações de 2015/2016 aconteceram por causa da corrupção” já digo que isso não é verdade, estas mobilizações só ganharam corpo por conta da crise das commodities iniciada em 2015 (que expliquei melhor em O abismo neoliberal) foi causada por uma quebra de 75% nos preços globais das matérias primas em 2014, o que jogou o Brasil e boa parte dos países pobres em uma crise que em alguns lugares (como Argentina e Venezuela) viraram crises inflacionárias e no Brasil virou uma crise recessiva (onde por muito pouco não virou uma crise inflacionária).

Temos que largar de uma vez por todas essas lamentações derrotistas de que “o povo não sabe votar”, “o povo tem o governo que merece”, isso não ajuda a explicar a realidade além de afastar ainda mais as pessoas da esquerda. Ainda dá tempo de mobilizarmos a militância para ajudar as pessoas, pois, estes fatores que ajudaram Bolsonaro a ganhar popularidade são fatores temporários, já que o governo foi tão fragilizado pelo neoliberalismo a ponto não tem condições de manter estas políticas assistenciais em sua plenitude. Cortes violentos de direitos já estão no horizonte pós-pandemia e causarão um aprofundamento da crise. Devemos estar atentos.

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