O FMI publicou hoje (14) o relatório de abril do panorama econômico mundial onde mostra as perspectivas do órgão para a economia global no ano de 2020 e 2021. Neste relatório, o órgão mostra uma crise de proporções titânicas causada pela pandemia no mundo, a maior desde 1930, uma recessão a nível mundial de 3% em 2020 e uma otimista previsão de crescimento de 5% no ano que vem.

Obviamente o relatório é um relatório otimista, onde os economistas, perdidos num mar de incertezas, tentam ver algum horizonte no meio da intoxicante névoa dessa pandemia que parece não ter fim. Neste artigo, destrincharei outros fatores junto com o relatório que apontam que a Grande Depressão de 1930 parecerá uma “marolinha” perto do que está por vir. Longe de ser alarmismo vazio, esta análise, baseados em dados objetivos, tem como objetivo mostrar o mundo desafiador que está por vir.

Não que o mundo estivesse antes da pandemia uma perspectiva muito boa, como adiantamos na nossa humilde página ainda no final de fevereiro, mas esta crise em muitos aspectos, está sendo aprofundado pela pandemia. A guerra comercial de 2018/2019 só acabou por um acordo entre os EUA ea China duas semanas antes do estouro da pandemia, já que se tinha em perspectiva um aprofundamento da crise econômica global (que nunca cessou de fato desde 2008).

Agora, com a pandemia, esta crise que já estava no horizonte agora está vindo de uma forma muito aprofundada, com uma perspectiva de queda prolongada da economia global, não como fala o otimista relatório do FMI, pois além da paralisia das cadeias de produção global, ainda existe em perspectiva, uma grande crise das dívidas públicas, que levarão a um aprofundamento ainda maior desta crise.

O aprofundamento da crise, quanto menor a quantidade de mortes, menor a crise

Uma coisa que o relatório do FMI deixa claro é que países que sofrem mais com a pandemia, com uma quantidade maior de mortos pela doença são os que mais sofrerão com a crise econômica que vem. Enquanto países como a Alemanha terão retração em 2020 de 7%, a Espanha sofrerá com 8% de baixa e a Itália abissais 9,1% de queda do PIB.

A Alemanha vem seguindo as recomendações da OMS, com a testagem em massa da população, além de ter feito uma grande quarentena preventiva. Dos países da União Europeia é o que tem neste momento (14 de abril) a estrutura de saúde pública mais robusta, além de um banco central que abriu os cofres completamente para o socorro da economia.

Tudo isso mostra, que diferentemente do que a extrema-direita propaga no Brasil, o que destrói com mais intensidade a economia é o vírus e as mortes em consequência dele e não a quarentena. Além de ser uma ideia pró-morte a luta da extrema-direita para sabotar a quarentena, os números do FMI são bem claros que isso também é antieconômico e pode levar ao aprofundamento do desastre em que estamos.

A demolição da União Europeia

Uma coisa que esta crise da pandemia está deixando claro é que na hora do “pega pra capar” os blocos econômicos, políticos e militares neoliberais estão se afundando num mar de intrigas sem fim, em disputas mesquinhas e desnecessárias entre seus membros, e tudo isso está ressuscitando os velhos nacionalismos, já exacerbados desde a crise do euro, segunda onda da crise de 2008.

Enquanto a China ea Rússia enviam ajuda humanitária para os países europeus, a União Europeia não se entende e briga para implementar uma emissão de dívida pública com uma cotização de juros comum, com Alemanha e Holanda torcendo o nariz para a ideia de dividir a conta da crise com os países latinos da Europa.

Juntamente a isso, a OTAN, feita para impor o terror no mundo e fazê-lo seguir os caprichos estadunidenses, está em pleno processo de demolição com os EUA, o país mais rico do mundo e detentor da impressão da moeda do comércio global, em desespero para conseguir os insumos médicos para conter a crise, se utilizando de táticas econômicas sujas para conseguir tais equipamentos, transformando alfândegas em casas de leilão, como adiantado por nossa humilde página.

Tudo isso se conjura uma noção, cada vez mais forte em todos os países com governantes com dois neurônios em funcionamento, que o domínio do dólar e a centralização das transações econômicas em mecanismos controlados pelos EUA é algo prejudicial para eles, e cada vez mais se caminha para o momento pós pandemia, numa forte ofensiva para demolir o dólar como moeda de transação global, com o Euro se encaminhando para seu trágico fim, acarretando no fim da UE e consequentemente, numa crise com características terminais nos EUA.

O rebote da dívida não deve ser subestimado

As crise modernas têm, ao menos, três grandes fases que são característicos dos remédios disponíveis para combater seus efeitos maléficos a curto prazo, A primeira onda recessiva, a onda inflacionária inicial, e o rebote da dívida, que pode terminar, ou em uma nova onda inflacionária mais forte, ou como modernamente está convencionado pelos banqueiros como solução, uma onda recessiva de menor escala mas igualmente devastadora.

Como a crise de 2008 e seus prolongamentos mostraram, a dívida que é feita para salvar a economia é cobrada um pouco depois com uma grande onda da tal “austeridade econômica”, que nada mais é do que cortar toda a ajuda econômica ao povo, a educação, a saúde, os serviços básicos e entregar todo o dinheiro dos impostos aos bancos enquanto o povo passa fome.

Esta “solução” é adotada em detrimento da inflação, porque uma onda inflacionária, como a crise dos anos 1970 e 1980 mostraram, dão grande poder as reivindicações sindicais, as greves por melhores salários e a subsequente organização política dos trabalhadores, o que num momento de fragilidade econômica pode ser uma plantadora de revoluções pelo mundo todo.

Países que podem passar por este repique facilmente, já que estavam em uma situação fiscal mais frágil são justamente os países mais afetados pela pandemia, como a Itália, Espanha e França, além do Japão, Argentina e Brasil.

Os EUA poderão passar por esta situação, pela primeira desde os anos 1930, se o dólar for deixado de lado pelas outras nações, como se desenha no horizonte, já que a dívida externa dos EUA já passa dos 100% do PIB (fonte:https://pt.tradingeconomics.com/country-list/government-debt-to-gdp), mas só consegue manter o seu estado de pé por conta, justamente, da prevalência do dólar nas transações globais, o que permite usar a maquininha de imprimir dinheiro sem ter o efeito colateral da inflação, já que serão os outros países que sentirão os efeitos na valorização artificial de suas moedas e na subsequente destruição de suas cadeias produtivas.

Tudo isso impulsionará a miséria em todo o mundo depois da primeira onda da crise após a pestilência ser controlada, já que aquilo que sobrou do welfare state que havia sido construído no século anterior terá de ser liquidado para pagar a conta que virá no futuro.

A “uberização” da economia potencializará os efeitos perversos

Além de todos estes detalhes, mais um fator potencializará ainda mais os efeitos perversos desta grande crise, a perda sucessiva dos direitos dos trabalhadores e a precarização dos trabalhos. A partir dos anos 1990, acelerado pela revolução digital, começou um fenômeno novo, onde o trabalhador, de empregado de um determinado patrão, passou a ser tratado como um “empresário de si mesmo”, onde ele passou a ser responsável por prover com seus parcos salários, todos os insumos para o seu precário trabalho.

Tudo isso culminou na chamada “uberização da economia”, onde o trabalhador, agora chamado de “colaborador” é o “único” responsável por seu trabalho e os aplicativos agem, não como o patrão, mas como “intermediário” entre o “colaborador” e o cliente.

Neste momento de paralisação econômica está sendo devastador para estas pessoas, que apesar dos intentos dos governos para evitar que caiam na miséria, mas ainda eles tem os custos relacionados a manutenção de seus equipamentos e dos materiais de trabalho, que sem a receita dos mesmos, se acumulam, jogando estes “empresários de si mesmos” na condição de falidos economicamente.

Não existindo qualquer forma para que pessoas físicas possam “pedir um tempo” para se reorganizar financeiramente, eles não terão condições para retomar os trabalhos após a retomada da “vida “normal”, ficarão à míngua e entrarão em peso no mercado de trabalho normal, reduzindo abissalmente os salários e se tornando mais um fator prolongador da crise econômica.

No Brasil, por exemplo, esta massa é de 40% da população economicamente ativa, que boa parte dela tentará ingressar no mercado de trabalho formal, que deixarão de consumir o que consumiam antes (que não era muito também) passando a uma economia de subsistência, o que irá acarretar numa redução do mercado consumidor e no ciclo vicioso da paralisia da economia.

Conclusão

Tudo isso demonstra que as previsões, ainda que aterradoras, são até otimistas quando se analisa mais de perto os fatores econômicos que se congregam atualmente para formar esta crise. Ainda é cedo para se saber as reais dimensões da pandemia, tudo indica que uma segunda onda de contaminações e quarentenas é algo palpável até que se encontre uma vacina ou métodos terapêuticos mais eficientes.

Tudo isso poderia aumentar e muito as proporções da crise que está na esquina, acenando para nós. Devemos estar preparados para encarar este horizonte desafiador que torna a previsão do FMI otimista, muitas mudanças na política internacional e nacional ocorrerão e todas elas você terá aqui na nossa humilde página.

Recomendações do Ministério da Saúde (leia mais sobre a doença em https://coronavirus.saude.gov.br/ )
Recomendações do Ministério da Saúde (leia mais sobre a doença em https://coronavirus.saude.gov.br/ )

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