A maior guerra do século XXI, iniciada em 2001, como uma resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro, ganhou o começo de um desfecho. 19 anos depois, 2 trilhões de dólares gastos e por volta de 120 mil mortos numa população que, segundo o Banco Mundial, atualmente é de 35 milhões de pessoas (na época do início da guerra de 20 milhões), foi assinado no último sábado (29) em Doha no Qatar, um acordo de paz entre o que é conhecido no ocidente como Talebã, autodenominando-se Emirado Islâmico do Afeganistão e o governo dos EUA para pôr fim à Guerra do Afeganistão.

Iniciada no rescaldo dos atentados terroristas de 11 de setembro, ao qual se atribui a autoria intelectual a Osama Bin Laden, a guerra travada num dos países mais pobres e atrasados do mundo, tinha como objetivo oficial a captura do terrorista saudita, que no começo de maio de 2011 foi morto, não no Afeganistão, mas no Paquistão, país vizinho e aliado dos EUA. 

Mas além deste objetivo declarado, outros objetivos também estavam colocados, como por exemplo, a deposição do governo fundamentalista islâmico de linha Wahhabista (a mesma linha dura da ditadura absolutista da Arábia Saudita e do DAESH/ISIS), que dominava o país desde 1996, após uma luta interna entre as diferentes facções fundamentalistas que foram apoiados pelos EUA para derrubar o governo socialista da antiga República Democrática do Afeganistão, sendo fruto desta ajuda estadunidense a Al-Qaeda.

No entanto, os EUA afundou num grande atoleiro militar. Não conseguiu estabelecer um governo minimamente funcional que funcionasse sem precisar da ajuda de tropas estadunidenses, sendo que o governo implantado pelos EUA/OTAN só tem o controle de 30% do território, uma cifra comparável ao domínio que a República Democrática do Afeganistão tinha após o fim do apoio militar soviético em 1989. Não foi um desastre completo para os EUA, pois o plantio de papoulas para a produção de ópio, morfina entre outros opióides bateram grandes recordes com a ocupação estadunidense, isso após a quase extinção do cultivo pelos Wahhabistas afegãos.

Mas após meses de negociações, com a pressão do COVID-19 sobre a economia global em ano eleitoral nos EUA, o acordo de paz foi assinado. Os termos do acordo basicamente se resume a promessa de saída das tropas dos EUA em troca da libertação de prisioneiros de todos os lados envolvidos, a manutenção de um acordo para a inserção das partes afegã do conflito na política interna do país e o Talibã se comprometer a romper formalmente com a Al-Qaeda. 

Logo depois o governo pró-EUA do Afeganistão afirmou que não se comprometeu em libertar os prisioneiros do Talibã sob sua guarda, mostrando que este acordo já começa um tanto torto, cabendo bem a expressão (ainda que não seja literal) “faltou combinar com os russos” (no caso, com o próprio governo pró-EUA do Afeganistão). Além disso, o Afeganistão é uma região estratégica para os EUA, ainda que extremamente pobre, ela fica entre o Irã, a China e próximo da Rússia, países que os EUA assediam já a algum tempo.

Esta assinatura repentina de um acordo de paz com grupos que a há bem pouco tempo atrás estava fora de cogitação, até mesmo manter um diálogo mínimo é uma amostra de como a política dos EUA, não apenas no Oriente Médio, mas no resto do mundo está fracassando. 

Por mais que tente disfarçar, talvez até descumpra o acordo na cara dura como já aconteceu em guerras anteriores, mas fica evidente a derrota da grande potência mundial, que não consegue instaurar uma mínima ordem num país que invadiu, mesmo gastando nesta guerra o equivalente a 57 mil dólares por cada cidadão afegão. Apesar de ainda perigoso, o domínio do Tio Sam mostra-se cada vez mais fragilizado, e que sim, ele pode ser vencido, mesmo por pessoas extremamente pobres num dos países mais pobres do mundo.

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