O ministro do STF, Celso de Mello, decidiu hoje (22) publicar o vídeo da reunião do dia 22 de abril, indicada por depoimento do ex-ministro, Sérgio Moro, que comprovaria a intenção do presidente de interferir na Polícia Federal, para fins pessoais. O vídeo foi publicado pelo ministro quase na íntegra, com a supressão apenas de trecho que referenciam países (apesar dos trechos publicados deixarem claro de quais se tratam).

A reunião em si, com jeito e linguagem de conversa de boteco, que tinha como inicial discutir o programa Pró-Brasil, acabou enveredando para um festival de venenos antidemocráticos, pedidos para armar a população para uma guerra civil, além da externalização das vontades de vários ministros como Weintraub e Damares Alvez de prender prefeitos, governadores e ministros do STF. Uma coisa ficou clara nesta gravação, Bolsonaro queria intervir nos órgãos de segurança (ele de fato estava se referindo de forma geral) para que eles trabalhem para que espionem a população para seu projeto de poder.

A reunião começa com uma breve apresentação do ministro Gen. Braga Neto, que começou falando que o objetivo da reunião era acertar os detalhes do plano Pró-Brasil, mas rapidamente o assunto enveredou para as críticas que estava sofrendo, dizendo que o tratamento que estava recebendo era muito pior que o tratamento que a esquerda tinha, comparando homenagens a grandes figuras anticapitalistas a pedidos de fechamento do congresso nacional e do STF, ignorando o fato de que, em nenhum momento, a esquerda saiu às ruas pedindo golpe de qualquer tipo, mas que a direita quase semanalmente o faz, ignorando até mesmo uma pandemia mortal que já ceifou mais de 20 mil pessoas até a data de hoje.

Ao mesmo tempo que comparava aqueles manifestantes que pediam o AI-5 pelas ruas com a esquerda, o ministro da educação, Abraham Weintraub, falava que se fosse por ele, os políticos de Brasilia seriam presos a começar pelos ministros do STF. Damares Alves falou que as medidas de isolamento social eram uma “violação dos direitos humanos” e que por ela, todos os prefeitos e governadores seriam presos. Mais uma coisa chama ainda mais atenção, Bolsonaro em um momento da reunião falou que quer armar a população, para segundo ele, “defender a democracia”, mas deixou a entender que as medidas de distanciamento social que estavam sendo feitas por prefeitos e governadores eram medidas ditatoriais, e que uma população armada reagiria diante dessas imposições.

Será que Moro tinha razão?

Bolsonaro após reclamar de um suposto tratamento desigual que recebia, imediatamente ele soltou aquela parte que a Advocacia Geral da União (AGU) publicou, na qual Bolsonaro usava a palavra segurança e que segundo ele “se não pudesse trocar o superintendente, trocaria o delegado-geral, e se não pudesse trocar o delegado-geral trocaria o ministro”, mas sim, de fato Bolsonaro nesta parte não se referia apenas a Polícia Federal, mas a todo o aparato de segurança pública federal e até mesmo a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

Esta fala foi emendada logo por uma outra, que apesar de ter sido quase totalmente censurada pelo ministro do STF por conter menção a países terceiros, deu para entender que o país a que ele se referia era a República Popular da China, que segundo ele; “apesar de ser um grande parceiro comercial do Brasil, principalmente na área do agronegócio…” a frase imediatamente seguinte foi censurada por Celso de Mello, “mas devem ter gente infiltrada até mesmo aqui, não podemos confiar neles e se for necessário intervir, irei intervir”.

Isso mostra a assertividade da análise de nossa página que mostrou que a demissão de Moro era muito mais um mero desentendimento, mas sim uma disputa pelo aparato de segurança pública, agora colocado às claras pelo vídeo da reunião. Também foi colocado às claras porque Bolsonaro começou a agir de forma mais intensa para aumentar o seu controle do aparato de segurança pública, segundo ele, está situação foi causada por uma grande conspiração (no vídeo deixou a entender que essa suposta conspiração é liderada a partir de fora) para derrubá-lo do poder “com uma suposta crise criada por governadores inescrupulosos que usam o “vírus chinês” como desculpa para criá-la”.

É neste contexto que entra a sua fala que “até os pais dão uma espiadinha na porta para escutar o que o filho anda fazendo, aí não adianta depois tentar conversar quando a filha fica grávida ou o filho enche o rabo de droga” (o palavreado foi desse nível para baixo). O que quer dizer, não apenas que ele quer saber das investigações contra ele antes que alcancem um nível maior, mas sim, que ele quer espionar o povo mesmo, principalmente a oposição para impor uma ditadura dele “em nome da democracia e da liberdade”.

Bolsonaro é mais pernicioso do que as pessoas querem acreditar, Bolsonaro não quer uma democracia de verdade, uma democracia com liberdade plena para o povo, Bolsonaro em nome da democracia quer destruí-la até não sobrar nada. Os golpistas de 1964 também falavam que estavam fazendo o golpe contra um presidente democraticamente eleito “em nome da democracia”, os golpistas que instituíram todos os exóticos (para dizer o mínimo) atos institucionais, o faziam em nome da tal “democracia” da tal “liberdade”, mas enquanto “defendiam a liberdade”, sequestravam, torturavam, matavam todos os opositores e até mesmo os povos indígenas (que Weintraub tanto odeia).

Outras aberrações (igualmente aterradoras)

Nesta reunião, os shows de horrores não ficaram só na parte da disputa do aparato de segurança pública ou no pouco caso que fizeram da pandemia, Paulo Guedes indagou Bolsonaro pela privatização do Banco do Brasil, já que segundo ele, como é um banco de capital aberto, não é possível realizar nada por ele. Bolsonaro desta vez ficou reticente, falou que privatização do Banco do Brasil só é possível discutir a partir de 1 de janeiro de 2023 (após uma suposta reeleição), dando a entender que não descarta a ideia, mas acha que é uma pauta impopular neste momento.

No começo da Reunião o ministro do meio ambiente, Ricardo Sales, disse que a hora de “desregulamentar” o governo é agora, já que segundo o ministro, a cobertura midiática da pandemia deixa o caminho livre para fazer o que eles querem sem ter grandes obstáculos judiciais. Nenhum ministro ali de fato estava pensando nas vítimas da pandemia, nenhum deles pensava nos mortos pela doença, nenhuma lamentação, a reunião deixou claro que Bolsonaro considera a doença uma grande conspiração global para tirá-lo do poder.

Conclusão

Bolsonaro e Moro não tiveram seu entrevero por causa de questões pessoais simplesmente, o motivo pelo qual entraram em choque direto era porque Bolsonaro queria o controle total do aparato de segurança pública e Moro também queria. Mas Bolsonaro não o quer simplesmente para não ser investigado pela ligação de sua família com as milícias, mas sim porque ele, assim como Moro, também quer se tornar ditador, ele também quer o poder total, ainda que segundo ele “em nome da democracia, da liberdade”.

Mais do que nunca é necessário deter este louco que está no poder, mas o impeachment dele apenas não basta, é necessário que a camarilha que o acompanha, que é tão ruim quanto ele, seja expulsa da máquina governamental e que o estado passe por uma grande limpeza, já que o Bolsonarismo tem profundas raízes na própria estrutura estatal, principalmente dentro do Exército e do aparato de segurança. Como podemos ver, há uma ditadura sendo implementada a conta gotas, se não ficarmos atentos, ainda mais tragédias ocorrerão.

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