Ontem (04), por volta do meio-dia em Brasília, 18 horas no local, o porto de Beirute, numa cidade milenar, cuja a fundação data entre 1500 a 1400 antes de Cristo, sofria um grande incêndio em uma de suas docas. Pequenas explosões eram registradas em meio das chamas altas, mas, de repente, uma titânica explosão surge no meio das chamas. Tudo que estava no raio de alguns metros foi destruído, todas as janelas num raio de 10 km foram quebradas. A explosão foi tão grande que seu estrondo foi ouvido da ilha de Chipre, a mais de 150 km do local.

A explosão, ainda sem causa determinada (mas já com suspeitas que não tratarei neste artigo), vem como a pá de cal num país que até o ano passado vinha se reerguendo de décadas de instabilidade política, tanto interna quanto vinda de seus vizinhos, Israel e Síria, entrou em uma crise da dívida, que está em uma galopante alta desde 2014, mas que desde dezembro do ano passado se transformou em uma crise inflacionária. Qual será o futuro do Líbano diante da destruição de seu principal porto? Isso terá impacto na política local e no Oriente Médio?

Para entendermos isso, precisamos primeiro entender melhor o país. O Líbano, banhado pelo mar mediterrâneo a oeste, foi lar de grandes civilizações desde muito tempo atrás, a mais famosa foram os fenícios, que eram hábeis navegadores e comerciantes, que inventaram o alfabeto, que com modificações foi a base para a maioria absoluta dos alfabetos ocidentais, como o alfabeto grego e o latino. Mas no início do século XX, a região onde hoje está o Líbano, se encontrava sob domínio Turco Otomano.

No fim da primeira guerra mundial, o Império Turco se dissolveu e o Oriente Médio foi dividido entre as potências europeias vitoriosas contra a vontade dos povos que ali viviam e descumprindo as promessas feitas pela Inglaterra e França para eles. A área onde hoje ficam o Líbano e a Síria caíram sob domínio francês e a área do Líbano foi escolhida para a construção de um estado de maioria cristã no Oriente Médio. Na prática, o Líbano é muito dividido, com ⅓ da população muçulmano xiita, ⅓ muçulmano sunita e ⅓ cristão, principalmente maronitas (que estão em comunhão com a igreja católica) e ortodoxos gregos.

Essa divisão religiosa da sociedade levou o Líbano a enfrentar 15 anos de uma dura guerra civil, iniciada em 1975, extremamente sangrenta, que em alguns momentos o país foi ocupado por tropas israelenses, responsáveis por diversos massacres de refugiados palestinos no país. A guerra civil acabou em 1990 com um acordo de paz onde as três principais correntes religiosas do país teriam direito a representação política paritária, com o parlamento dividido entre muçulmanos e cristãos, com um presidente cristão, um primeiro-ministro muçulmano sunita, e o presidente do parlamento xiita. 

Esse tipo de representação paritária feita sem um censo demográfico que o sustente (o último feito em 1936 com uma grande suspeita sobre ele), a população libanesa está sub representada, e aliada a uma crise da dívida pública e uma inflação que neste ano está alcançando os 90% ao mês, a situação do povo libanês já estava num estado calamitoso e por conta disso diversas manifestações de grande envergadura explodiram no país, e mesmo com a pandemia, elas estavam ganhando mais e mais corpo.

Agora com a destruição catastrófica ocorrida no principal porto do país, a economia libanesa tende a piorar ainda mais, já que seus vizinhos, ou são hostis (como Israel), ou estão em guerra civil (com a Síria), fazendo o Líbano depender do comércio marítimo para manter sua economia em funcionamento. Ainda que tenham o porto de Trípoli, mas ele sozinho não conseguirá dar conta da demanda do país, afundando-o ainda mais na crise econômica em que se encontra.

Sem uma negociação com os credores internacionais, a tendência é que o Líbano afunde ainda mais na crise inflacionária até alcançar o ponto da hiperinflação, já que o orçamento nacional, deficitário, dificilmente se recuperará sem a reconstrução do porto, que junto com uma dívida de 170% do PIB, obrigará o país a recorrer ainda mais a maquininha de imprimir dinheiro, jogando o valor da moeda nacional no chão, com escassez de moeda forte devido ao câmbio fixo e um aumento ainda maior do uso do dólar paralelo no país. Para aqueles que não podem comprar ou adquirir moeda forte, que é a grande maioria da população, só restará a fome e os preços disparando nos mercados.

Todo este cenário que se projeta é muito ruim para esta nação multicultural, onde diferentes religiões e grupos políticos tentam manter uma paz frágil que pode se dissolver na agudização da crise que já vinha passando. Esta situação pode levar o Oriente Médio a se afundar ainda mais em suas intermináveis guerras, causadas pela divisão aleatória feita pelas potência europeias, que do alto de sua arrogância, transformou uma região pobre mas pacífica, em um barril de pólvora prestes a explodir, não apenas com a própria região, mas com o mundo todo.

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