Há certas coisas na vida que não podemos “pagar para ver”, justamente porque são coisas muito perigosas caso aconteçam e podem trazer consequências terríveis e de longa duração. Isso se mostrou uma verdade agora na pandemia, onde o governo resolveu “pagar para ver” se a pandemia realmente chegaria ao Brasil e como ela seria. Não deu outra, o tal “resfriadinho” se mostrou uma pneumonia grave, custosa e de difícil controle, que devido a sua facilidade de transmissão já ceifou a vida de mais de 40 mil brasileiros.

Na política parece que há certos grupos que estão insistindo em repetir o mesmo erro com Bolsonaro. Em entrevista publicada no dia 12 pela revista Época, Tasso Jereissati, um dos principais senadores do PSDB, que é um dos partidos que tentam articular uma frente amplíssima de oposição, que vai do PSDB e DEM até Rede e PDT, declarou que não é hora do impeachment de Bolsonaro, pois segundo o senador; “Enquanto não tivermos a pandemia pelo menos sob controle, não podemos desfocar disso. E depois vem a crise econômica e social, que será profunda”. 

Isso traz à tona que esta frente não quer retirar Bolsonaro, que é simplesmente a pessoa que aprofunda a crise e se aproveita do caos gerado por ela para, citando o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles “passar a boiada”.  Bolsonaro não é um personagem coadjuvante a crise, mas sim o seu aprofundador, o principal sabotador das medidas sanitárias, o principal camuflador dos números de mortos e contaminados, a tal ponto de juntar a imprensa para ela mesma somar os números das secretarias de saúde estaduais a fim de ter números mais confiáveis sobre o que está acontecendo. Vejamos abaixo o porquê Bolsonaro tem que sair agora, mesmo diante de toda esta crise.

Bolsonaro desde o seu primeiro pronunciamento sobre a doença que viria a ser pandêmica, vinha menosprezando a sua força, claro, inicialmente também ele vinha seguindo as recomendações de Donald Trump que também a menosprezava, mas diferentemente de Trump que agiu quando se deu conta do tamanho do problema, Bolsonaro se posicionou contra os governadores que começaram as medidas de distanciamento social para combater a pandemia, a tal ponto que dois ministros da saúde caíram por apoiar tais medidas e do período da demissão de Teich até agora não termos ministro da saúde efetivo.

Porém, o mais grave é a ameaça que ele fez em não cumprir uma ordem do STF em caso de ordem de apreensão de seu celular, no recente episódio da investigação do caso da intervenção na PF que foi denunciado por Moro. Bolsonaro em sua ameaça recebeu respaldo do General Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que soltou nota dizendo, caso o pedido de apreensão fosse atendido, que o ato teria consequências “imprevisíveis”. A infame nota teve apoio de diversos outros generais, e o pedido de apreensão foi rejeitado pelo ministro Celso de Mello.

O judiciário em uma república representativa como a nossa, tem o papel de mediar conflitos e interpretar as leis existentes de acordo com a constituição vigente, que é uma carta de princípios do regime político em questão. A desobediência deste órgão por quaisquer dos outros poderes é uma quebra com a ordem constitucional vigente, e o apoio do exército, detentor da força militar no aparato da república representativa, a tal ato de desrespeito, é uma afronta a constituição vigente, jogando as leis e as instituições (incluindo o parlamento) pelo esgoto abaixo.

Se o leitor ainda está com dúvida do que estou falando, aqui fica uma reflexão, se o presidente não obedece uma ordem judicial e o exército o apoia, porque cargas d’água ele obedeceria o congresso em um pedido de impeachment? Por tanto, o desrespeito a justiça, sancionado pelo exército, não é apenas uma linha vermelha, como Jereissati dá a entender que deve ser, mas é simplesmente o ponto de não retorno da destruição do pacto político nacional (ou pelo menos do pouquíssimo que sobrou dele).

Por tanto, Bolsonaro já rompeu a linha vermelha ao ameaçar o congresso e o STF, isso não pode ser aceito por quem defende os direitos democráticos, porque isso é a porta da tirania. A pandemia e a crise econômica não são desculpas para se adiar o inevitável, já que Bolsonaro é o aprofundamento destas crises correlatas e simultâneas. Uma frente amplíssima sem a palavra de ordem de Fora Bolsonaro é melhor nem ser formada, pois isso geraria falsas esperanças nos incautos e esta entrevista é a maior prova de que a direita desta frente amplíssima não está interessada em remover Bolsonaro do poder.

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