Recentemente, o The Intercept Brasil, publicou um artigo intitulado “elogiar ditadores é a melhor maneira de à esquerda continuar perdendo”, em que Tatiana Dias e Rafael Moro Martins, falam que, ao elogiar personalidades de esquerda que eles classificam como “ditadores”  como Lênin e Maduro, estaríamos dando munição para a direita criminalizar a esquerda com uma grande campanha anticomunista e que a solução é fazermos uma coalizão onde a esquerda fica falando “sim senhor” para a direita.

Essa é a solução dos covardes intelectuais, que prefere abaixar a cabeça a bater de frente contra a direita fascista. Essa direita ela não se alimenta de uma campanha “democrática” contra a esquerda, muito pelo contrário, os elementos de maior popularidade são aqueles que se mostram como “paladinos alados”, pessoas “corajosas” para humilhar, agredir, “mitar”, contra os elementos da esquerda moderada, justo a esquerda submissa que esses elementos do The Intercept propõe formar.

E longe de mim virem com a pecha de hipócrita, dizendo que alguém que diz defender liberdades democráticas está defendendo repressão e sangue. Leiam atentamente o manifesto de fundação e notaram a defesa do socialismo nele, sendo que no artigo que escrevi denunciando a demolição das liberdades democráticas disse:

“As liberdades democráticas são a camisa de força do estado que é naturalmente autoritário, principalmente no Brasil, onde o estado herdou muito genesis autoritária vinda do antigo estado colonial, já que a independência e a posterior proclamação da república foram feitas de tal forma a preservarem privilégios estabelecidos desde a chegada dos portugueses no Brasil.

É um estado e uma elite que naturaliza a truculência, o autoritarismo e o desprezo pelo seu país, principalmente pelos negros e pobres. E o estado como dizia o velho filósofo alemão Marx é o gerenciador dos negócios comuns da burguesia, e o estado brasileiro como tal carrega toda a sua carga autoritária, exploratória e truculenta tal como um estado colonial, um governo de ocupação.”

E contínuo:

“É um governo que tem como meta a destruição geral do Brasil e de seu povo, as liberdades democráticas claramente estão na mira de Bolsonaro para serem destruídas, é preciso impedir que o meliante demolidor continue com sua obra de destruição no governo ou não mais existirá forma de derrubá-lo sem grandes sacrifícios humanos.”

A defesa das liberdades democráticas é justamente para evitar que esses sacrifícios humanos ocorram, pois é da natureza das bruscas rupturas os grandes sacrifícios e a liberdades democráticas em pleno vigor evitam que grandes mudanças se tornem rupturas violentas, pois permitem que grandes problemas sejam externalizados, discutidos e sanados de forma saudável para a sociedade. 

Lênin, a pessoa que está sendo condenado como ditador pelo artigo do Intercept é o produto de uma dessas rupturas bruscas. A monarquia russa do final do século XIX começo do século XX, era uma das últimas monarquias absolutistas da Europa, responsável por mandar presos políticos para a Sibéria, para prisões sub-humanas, além de ser responsável por pogroms sistemáticos, que os maiores massacres de judeus até o holocausto. Nicolau II, tornado santo da igreja ortodoxa russa em um ato anticomunista com histórias antissemitas, foi um dos governantes mais sanguinários da Europa naquele período, que disparou contra civis que estavam fazendo reivindicações de forma pacífica e jogo a Rússia numa guerra sem sentido enquanto o povo passava fome.

A revolução russa foi acusada de ser violenta e destrutiva, mas a Rússia czarista não ofereciam qualquer opção de participação política da população, era uma ditadura sanguinária que não dava ouvidos às reivindicações populares. Por causa disso ela foi deposta de forma violenta, por causa disso a ruptura que se seguiu foi violenta e o governo soviético foi um governo endurecido, com grande participação popular em seu seio, mas que não conseguiu uma boa defesa contra as forças que internamente conspiraram para derrubá-la. A melhor defesa contra a violência política é a institucionalização democrática, transparente e popular da política, com a democratização e a transparência do exercício do poder, a construção do poder popular. 

Sobre a experiência venezuelana, os autores do Intercept simplesmente faz coro com a mesma direita que persegue Greenwald e que quer dar um golpe de estado na Venezuela. A experiência recente com o autoproclamado demonstra justamente o contrário, que o governo Maduro é tolerante demais com a oposição terrorista. 

Se isso não demonstrou nada a você então te pergunto, em qual país do mundo o presidente do congresso se autoproclama presidente, recebe dinheiro de potências estrangeiras de sanções que elas impuseram contra o país, ainda suborna policiais para libertarem um bandido condenado dizendo que tem as forças armadas com eles e ainda fica livre por aí como se nada tivesse acontecido? Qual ditador deixaria um opositor fazer tudo isso e ficar vivo e impune?

No que a esquerda está errando?

Isolar um único fator, como os autores do infeliz artigo do Intercept fizeram, simplesmente pode nos levar a análises equivocadas sobre o problema. Para conseguirmos entendê-lo, temos que começar a análise a partir dos fatores iniciais que detonaram a atual crise.

Espionagem estrangeira e propaganda direitista

O The Intercept tem essa notoriedade hoje graças ao trabalho que um de seus fundadores, Glenn Greenwald, que o lançou para divulgar os documentos secretos da NSA (National Security Agency, Agência Nacional de Segurança), obtidos por Edward Snowden, ex-agente secreto do órgão governamental dos EUA. 

Os documentos falavam sobre como os EUA mantinham uma ampla rede de espionagem sistemática e contínua por todos os meios eletrônicos a diversos alvos dentro e fora dos EUA, não para fins de segurança nacional apenas, mas para obter vantagens sobre terceiros países.

Um dos países mais espionados foi o Brasil, na época governado por Dilma Rousseff, que teve seus equipamentos de comunicação espionados, junto com os equipamentos de toda a alta cúpula do governo, com destaque para a espionagem feita contra, adivinhem? A Petrobras. Para deixar ainda mais claro o nível conspirativo já em 2013, quem foi que disse para a presidenta que ela estava sendo espionada? Uma materia no Fantastico, em pleno horário nobre no domingo. ABIN? Essa “não sabia” de nada, ou pelo menos fingiu não saber, do jeito que os militares se comportaram depois, dá até para cogitar que talvez tenha colaboraram com esse descalabro.

Mas o que a presidenta fez para evitar que eventos como esse ocorresse de novo? NADA, tanto que aconteceu de novo, dessa vez no famoso caso do “bessias”. Teve até cutucada de Snowden no Twitter na época do fato.

Outro fator que contribuiu para a esquerda cair na crise, foi o fato de que, em nenhum momento se contrapôs a propaganda da direita, que estava se intensificando cada vez mais. Olavo de Carvalho era só um “velho louco adorado por meia dúzia de olavetes” , hoje é chamado de guru do governo. 
A direita reeditou em 2014 a famigerada “Marcha da Família com Deus pela liberdade”, onde eles pediam a volta da ditadura militar. A esquerda respondeu com uma Marcha Antifascista feita no mesmo dia e hora da manifestação reacionária. Ninguém da esquerda submissa estava lá, só a esquerda revolucionária, que hoje esses elementos do The Intercept querem transformar em esquerda submissa.

Dilma foi largada quando ela cedeu a direita

Logo após as eleições de 2014, começaram a ter movimentações da direita para derrubar a presidenta Dilma, porém elas não haviam ganhado força naquele momento, apesar de já terem alguma musculatura.  O fator decisivo para a virada da direita foi justamente o fato de que a presidenta, um pouco antes de tomar posse do segundo mandato, na virada de 2014 para 2015, tomou uma série de medidas que mexiam no abono salarial, seguro-desemprego, pensão por morte, auxílio doença, aumentou os preços da luz, gasolina, diesel, etc. 

Medidas que comparadas aos ataques da direita depois do golpe são bem tímidas, mas que na cabeça do brasileiro médio foi como uma facada nas costas, pois prometeu que não faria nenhuma dessas coisas, no entanto as fez. Essas medidas eram uma pequena sinalização para a direita e o “deus-mercado” que ela estava disposta a colaborar, mas que foram fatais para o seu governo, porque longe da direita aceitar e chegar num acordo, se aproveitou da situação e fez uma ofensiva ainda mais forte para derrubá-la. O golpe de 2016 foi a derrota da esquerda submissa com toda a certeza.

Agora essa esquerda submissa quer fazer uma frente ampla, mas destruindo qualquer coisa que soe destoante. Acha que vai chegar num acordo com a direita se eles se comportarem como anticomunistas fervorosos, apoiadores dos pacotes da direita, da comparação do comunismo ao nazismo e da perseguição sistemática aos comunistas. Lembrando que já escrevi artigo contra a perseguição empreendida pela direita a Greenwald, mas a postura defendida no artigo do The Intercept é simplesmente ceder a direita, a mesma que os perseguem.

O povo não quer pessoas acordadas, que ficam no canto tentando agradar seus algozes para serem bolsinhos e convidarem para um jantar caloroso. O povo precisa de uma esquerda segura de si, corajosa, firme, mas que tenha estratégia. O que a esquerda precisa não é aprender a falar “sim senhor” para o carrasco, mas sim mostrar coragem firmeza, tanto de ações quanto de caráter e mandar os direitistas de merda, destruidores de vidas e países tomarem no cú. Usando palavrão mesmo, como o Olavo ao falar dessa esquerda masoquista, dessa esquerda submissa.

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