Após a polêmica gerada pela exoneração de Maurício Valeixo da Diretoria-Geral da Polícia Federal e o posterior atrito que levou à queda de Sergio Moro do ministério da Justiça, Bolsonaro escolheu para ocupar os cargos vagos duas pessoas muito próximas a família Bolsonaro, Alexandre Ramagem (chefe da ABIN) para Diretor-Geral da PF e André Mendonça (então chefe da Advocacia Geral da União) para ocupar o ministério da justiça.

Essas duas indicações mostram a vontade de Bolsonaro de intervir mais diretamente os aparatos repressivos, na qual Moro havia colocado muitos dos que participaram da operação Lava-Jato no Paraná para ocupar a chefia desses órgãos. Mas Bolsonaro, como mostra claramente os prints, tanto de Moro quanto os da Carla Zambelli, queria de fato intervir diretamente nos órgãos repressivos para interferir nas investigações em curso contra os filhos e contra Rodrigo Maia. Mas quem são essas figuras “exóticas” que foram indicadas por Bolsonaro?

André Mendonça, então chefe da Advocacia Geral da União, órgão responsável pela defesa dos interesses do governo na justiça, tem uma peculiar formação, junto com a formação em direito é formado também em Teologia, sendo pastor de uma igreja evangélica em Brasília. Ele é cotado para ser indicado ministro do STF devido a falas de Bolsonaro que já disse que indicaria um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo com o objetivo de mudar o perfil da instância máxima do judiciário, tornando-o mais conservador.

A grande mudança que se espera com a indicação de André Mendonça é aumentar cada vez mais o viés de atuação do ministério para um rumo mais conservador em termos dos costumes. Porém, há de notar que André Mendonça antes de ser ministro da AGU atuava na intermediação de acordo de leniência (o equivalente a delação premiada das empresas), podendo pender a atuação no ministério da justiça para favorecer os grandes empresários (nada surpreendente para um governo que pretendia inicialmente pagar 200 reais de auxílio emergencial para os pobres)

Mas a grande prova de que Bolsonaro quer mesmo intervir com mais força nos aparatos repressivos é a confirmação da indicação de Alexandre Ramagem para o cargo de Diretor-Geral da Polícia Federal. Como visto nos prints de conversas entre Sérgio Moro, Jair Bolsonaro e a Deputada Federal Carla Zambelli, Bolsonaro estava insatisfeito com o rumo que as investigações da rede de geração de notícias falsas a partir do Planalto estava tomando.

Cada vez mais próximas aos filhos de Bolsonaro, Moro foi pressionado para troca do Diretor-Geral, mas Bolsonaro queria um nome ligado diretamente a ele e a seus filhos, tanto que na conversa com Carla Zambelli, Moro muda de ideia quanto a pedir as contas após Zambelli ter concordado em conversar com Bolsonaro para que fosse indicado Fabiano Bordignon, que antes de ocupar o atual cargo de Diretor do Departamento Penitenciário Nacional era delegado da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, um dos pontos de partida da operação Lava-Jato.

Alexandre Ramagem, até a indicação para a chefia da PF era Diretor-Geral da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), é amigo pessoal dos filhos de Bolsonaro e foi chefe da segurança de Bolsonaro após a facada que o então candidato à presidência levou em Setembro de 2018 em Juiz de Fora. Anteriormente ele atuou na Lava-Jato do Rio de Janeiro, onde como chefe de inteligência da Polícia Federal atuou na operação Cadeia Velha em 2017, que prendeu boa parte da cúpula da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A disputa pelo controle das forças repressivas só está no começo, a Polícia Federal anteriormente já deu indícios de que não se submeterá tão facilmente ao controle de qualquer elemento estranho ao cúpula da operação Lava-Jato, podendo dificultar muito a vida de Ramagem.

 Esta é só uma amostra de um conflito na qual, de um lado, Bolsonaro tenta desesperadamente sobreviver no cargo, já que um processo de impeachment se mostra quase inevitável, e de outro, um projeto de ditador que tenta manter suas garras nas forças repressivas para obter o poder total após 2022. Nenhum dos lados tem a intenção de manter as liberdades democráticas, ambos querem uma ditadura, mas sendo eles próprios os ditadores. Ambos os elementos devem ser enfraquecidos e todos eles tem que ser varridos do estado brasileiro antes de que aprofundem ainda mais os ataques que empreendem contra o povo.

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